quinta-feira, maio 28, 2009

P O S T A G E M 5 0 1

Ele falava tão claro, tão lúcido. Que menino. Ele abria a boca tão suavemente, e tão!- Rio Claro assistia à abertura bocal completa pelo You Tube, entusiasmada, careta ou chapada, urras graças ao céu da boca dele. Ele falava e as meninas giravam as turbinas do coração, as meninas puderam parir novos filhos. Não conheço nenhuma mulher que grávida pariu duas vezes o mesmo bebê - mal fechava a boca e o pessoal protestava. Ahhhhh...Tornava a conceder outros sons, pronto. EEEEEE!!!!! E não havia problema, palavras erguiam-se invioláveis, seguras, não aceitando na pior hipótese qualquer alteração de terceiros. E a saliva! Ah, a saliva dele, tão clara também, e úmida, úmida! bondosa, o preço da saliva daquele jovem vencia o medo do câncer. Porque o acaso quis responder e dizer que aquele rapaz diria sim!, quimioterapia urgente. Ele entrou na kombi improvisada de ambulância quase feliz, acenando para a vizinhança atônita inundando a rua, e ele deitado de bruços, com os lábios secos... mas ao tentar falar, não sabia respirar; falar e respirar, como o perturbava. Não! Ele queria gritar e dizer que esperassem pra enfiar aquela vara no rabo dele, não era justo! Que não o largassem dormindo sozinho sobre o rio passa 5; mas ele continuava, espetaram um espeto de churras, duas notas de dois reais lhe serviriam como lenço. O coração batendo esguio, imprimindo mal como uma pobre EPSON, o médico assegurava: não enfiei nada não. Num corpo subitamente vazio um espeto de churros encheu de sangue o lençol, o coração do rapaz da fala tão clara caindo ruidosamente do décimo andar, as enfermeiras correndo em círculos, tromba daqui, ele tentou entreabrir os lábios, aleijado, ousou soprar uma palavra pálida seja como fosse. Alguma coisa intensa e lívida operou a garganta, ele pode falar, e disse, firme, disse, e até a oxigenação do cérebro sucumbir vitoriosa.

Um comentário:

  1. me desculpe, o mundo é redondo e sem querer, me vi por aqui. seis anos depois. lembra-se?

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