sábado, julho 25, 2009

RAFA E O BÚLGARO


O Rafa atendeu o celular e ninguém falava nada. "Alô". Rafa desliga. Durante meses foi assim. "Alô". Rafa desliga. "E é privado, nunca vou descobrir quem é." E o telefone tocava sete vezes por dia. Sete tortuosas vezes. Rafa ficava maluco. Aí entrou no jiu jitsu. Na segunda aula, desistiu. Pegara um resfriado e precisaria urgente de tratamento com Apracur. Não era como pedir um cigarro solto aos transeuntes de Limeira. Tudo bem. Foi piorando, a febre. Batia na casa dos quarenta, sossegado. Tensão no cobertor. "Difícil suportar, tá duro, que frio". Morava sozinho e mantinha-se desempregado, o Rafa deixou cair o cobertor, bateu os dentes tão forte que desmaiou.

Acordou ao lado de um búlgaro velhaco, bêbado. "Quem é você?" Não houve resposta. Tudo bem. Tá tranquilo. "Tipo, têm um cigarro?". O búlgaro fumava um cigarro atrás do outro, coçava a orelha, grunhia algo e depois catarrava. O pé do Rafa foi atigindo. "Tudo bem." Guaguejou: "Tô indo embora, tchau." Foi o Rafa quem vazou. Que susto: o cobertor lhe deu choque. Perdeu a paciência, insistiu com a ternura triste. "Tem água gelada ainda? Puts. "Esqueci de encher, tem só um tiquinho" e despencou de pijama do terceiro andar.

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