terça-feira, setembro 15, 2009

REMOER NA PRAÇA DA MATRIZ


Lá estava ele, sentado, o Alfredo, fazendo hora na praça da Matriz. Quando se levantava e ficava em estado natural não contava com a estatura de um mamute. "Meu coração é de carne crua", repetia, ocioso. Os ombros largos apareceram aos quinze anos. As pálpebras pareciam o Maracanã acolhendo Bangu e São Cristovão, triste, tolamente triste. Comia pães tristonhos por isso, e por nada.

Como se adivinhasse que a menina que lhe cruzava a direção perguntaria que horas eram, reclamou: "não tenho cigarro, nem relógio". E aí ela se foi, pernas firmes, coxas sedutoras. Sou doente ou imbecil, Alfredo angustiado peidava. Os véus do futuro são uma caralhada de cocô de gato velho.

Antes de ver o rosto que jamais esqueceria, sentiu o enorme borrão estufar a cueca, bem lentamente. Começou a praguejar e vomitar para o céu, as sombras permaneciam mais longas, o rosto era tingido de vermelho, sua velha mãe - então sentiu os tímpanos estourarem. Tremeu, a merda escorria pelas finas canelas.

O cérebro descia imensas escadas da tortura. Vomitou feito vacas marinhas agora. Correu a esmo, jogou-se no mais violento rio de bebida da avenida sete e estuprou meia hora depois o tarado que fodera seu irmã mais nova, vítimia de câncer, outubro de 2007. As montanhas cobertas de neve sangrenta desapareceram da alma, era o dia seguinte.

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