quarta-feira, outubro 07, 2009

A FAMOSA RUA 8 DE RIO CLARO



Amigos, eu não gosto de sucrilhos, ou por outra, não desaprovo nem polvilho. Mas o que aconteceu ontem em frente à casa da Lucinha merece uma reflexão. Explico: ontem, Rio Claro parou, por isso comentarei o pequeno milagre que testemunhei.

Vinha eu caminhando pela rua 8, mão no bolso, pensando em Rock de Subúrbio. Deveria ser umas duas, três da tarde. Olhei à direita, passei pelo do bar do Lazo, que fica logo na esquina. Então uma velhinha apareceu. Cruzou a minha frente. Vestindo uma camiseta vermelha com os dizeres "BÉLGICA" - isto mesmo - a velhinha começou a andar de marcha à ré. Não deu outra: torceu o pé e as canelas enquanto atravessava o seu vale de delírio intransferível. A multidão parou. Os carros subiram nas calçadas. O chargista do jornal Comédia teve uma sinapse. Ciclistas pedalaram todos na vertical, pra depressa travarem seus veículos no céu. Guris trepavam em árvores para espiar. A Lucinha saiu na porta toda-toda; pagou tetinha. E eu estava sóbrio. Fui ajudar a velhinha punk e - ela deu uma cambalhota punk pra trás! Começou a rir em forma de parafuso. Eram trilhões de lágrimas conjuntas, reluzentes, infinitas, numa exibição generosa.

Todos os prédios de Rio Claro tingiram-se de azul-caixa-de-sabão- veludo. A estação ferroviária parecia um pão de ló vista por fora, de tão humilde e companheira. A velhinha, com a idade, perdera todos os cabelos. Mas restava-lhe o moicano. Não podemos esquecer o coturno. Um coturno deslumbrante, segundo o gerente de uma loja de roupas falsificadas da avenida 7.

Tudo bem. Teria realmente a velha realmente torcido o pé? Não sei. Senti um puta cheiro de pólvora. Vi binóculos estendidos nas nuvens, bonés do Chicago Bulls. A velha punk saiu pogando, pogando, uma hemorróida púrpura para todos os intestinos presentes. Houve buzinaço. E a velha punk pogando, babava, a guardinha municipal Josilaine no aguardo. A velha pescoçou 360 graus. Na apagada faixa de PARE, cuspiu tinta fresca. Assim, relampejando vitalidade, ela saiu rolêtando por aí, rua cinco, seis, apoteose - ziguezagueante em sua nada fraca marcha a ré. Ia aos berros chamando a geral de "cínicos, barnabés,paus-de-arara - e pregou a morte nacional. Na sequência, houve chuva.Granizo com glitter. Chuva sem sotaque. A Lucinha quase teve um piripaque: chapinha pré-agônica, fecha a porta no gás Lucinha!

AE não deu outra: andei poucos passos no timming rock de subúrbio e lá estava eu no supermercado Frolini. Comprei duas latas de Lecker, bem quentes. Nove e cinco cents cada uma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OUVINDO HARDCORE E LENDO ESCRITORES BRASILEIROS E DO TIO SAM

As pessoas estão sem coragem.  As pessoas brincam verbalmente nas redes sociais perpetuando o lado cômodo da vida.  Já é uma bela bos...