quinta-feira, agosto 26, 2010

O LUCRO OU AS PESSOAS?


Em suma, a primeira grande experiência de desenvolvimento econômico foi uma “má idéia” para os governados, mas não para os seus criadores e para as elites locais a eles associadas. Esse padrão se mantém até hoje: coloca-se o lucro acima das pessoas. A consistência dessa crônica não é menos impressionante do que a retórica que aclama como “milagre econômico” a mais recente vitrina da democracia e do capitalismo e do que essa retórica geralmente esconde. O Brasil, por exemplo. Na elogiadíssima história da americanização do Brasil antes mencionada, Gerald Haines diz que os Estados Unidos vêm usando o Brasil desde 1945 como “área de teste para os modernos métodos científicos de desenvolvimento industrial baseado no capitalismo intensivo”. Essa experiência foi levada a cabo “com a melhor das intenções”. Os investidores estrangeiros se beneficiaram, mas os planejadores “acreditavam sinceramente” que o povo brasileiro também se beneficiaria. Não é necessário explicar como foi que se beneficiaram ao tornar o Brasil “a menina dos olhos da comunidade internacional de negócios na América Latina” sob o governo militar nas palavras dos jornais de negócios –, enquanto o Banco Mundial relatava que dois terços da população não se alimentavam o bastante para suportar uma atividade física normal.

Em seu texto de 1989, Haines classificou a “política norte-americana para o Brasil” como “extremamente bem-sucedida”, “uma verdadeira história de sucesso americano”. O ano de 1989 foi um “ano de ouro” aos olhos do mundo dos negócios, com lucros triplicados em relação a 1988 e uma redução de cerca de 20 por cento nos salários industriais, que já figuravam entre os mais baixos do mundo; a classificação do Brasil no Relatório das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Humano estava próxima à da Albânia. Quando o desastre começou a atingir os ricos, os “modernos métodos científicos de desenvolvimento baseado no capitalismo intensivo” (Haines) se transformaram de uma hora para outra em prova dos males do estatismo e do socialismo outra transição rápida que ocorre sempre que necessário.

Para apreciar esse avanço, devemos nos lembrar de que o Brasil há muito é reconhecidamente um dos países mais ricos do mundo, dotado de enormes vantagens, até mesmo meio século de influência e tutela dos Estados Unidos, que, com a melhor das intenções, por acaso estão uma vez mais a serviço do lucro da minoria, enquanto a maioria do povo é deixada na miséria.



6 comentários:

  1. As “experiências” contemporâneas seguem um padrão conhecido ao assumirem a forma de “socialismo para os ricos” dentro de um sistema de mercantilismo empresarial global no qual o “comércio” consiste, em larga medida, de transações centralmente administradas no interior das próprias empresas, imensas instituições ligadas aos seus concorrentes por alianças estratégicas e dotadas de estruturas internas tirânicas projetadas para obstaculizar a tomada de decisões democráticas e para proteger seus donos da disciplina do mercado. Essa implacável disciplina é para ser ensinada somente aos pobres e indefesos.

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  2. O Haiti foi uma das mais ricas presas coloniais do mundo (ao lado de Bengala), fonte de boa parte da riqueza da França. O país tem vivido sob o controle e a tutela dos Estados Unidos desde que os fuzileiros navais de Wilson invadiram-no há oitenta anos. Hoje o Haiti vive uma tal catástrofe que dificilmente será habitável num futuro não muito distante.

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  3. Uma vez que Washington é o árbitro dos “verdadeiros interesses do povo cubano”, os planejadores do governo norte-americano acharam desnecessário atentar para os estudos de opinião pública que davam conta do apoio popular a Fidel Castro e do otimismo do povo em relação ao futuro. Por razões similares, as informações atuais sobre essas questões também não merecem atenção. O governo Clinton serve aos verdadeiros interesses do povo cubano, impondo-lhes fome e miséria, independentemente do que possam indicar os estudos sobre a opinião pública cubana.

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  4. O “nacionalismo radical” é por si só intolerável, mas constitui além disso uma “ameaça à estabilidade”, outra expressão que tem um significado especial. Quando Washington se preparava para derrubar o primeiro governo democraticamente eleito da Guatemala, em 1954, um funcionário do Departamento de Estado advertiu que a Guatemala “se tomara uma ameaça crescente à estabilidade de Honduras e EI Salvador. Sua reforma agrária é uma poderosa arma de propaganda; seu abrangente programa social de ajuda aos operários e camponeses na luta vitoriosa contra as classes mais altas e as grandes companhias estrangeiras tem um forte apelo sobre as populações de seus vizinhos centro-americanos, onde as condições são semelhantes”. “Estabilidade” quer dizer segurança para “as classes mais altas e as grandes companhias estrangeiras”, cuja prosperidade deve ser preservada.

    Tais ameaças à “prosperidade do sistema capitalista mundial” justificam o uso do terror e da subversão para a restauração da “estabilidade”. Uma das primeiras tarefas da CIA foi uma operação de larga escala para minar a democracia italiana em 1948, quando se temeu que o resultado eleitoral pudesse dar errado; planejou-se uma intervenção militar direta para o caso de falhar a subversão. Essa operação foi descrita como destinada a “estabilizar a Itália”. Pode-se até “desestabilizar” para alcançar a “estabilidade”. Assim, o editor do jornal semi-oficial Foreign Affairs explica que Washington precisava “desestabilizar um governo marxista livremente eleito no Chile”, porque “estávamos determinados a buscar a estabilidade”. Com uma formação adequada, pode-se superar essa aparente contradição.

    Os regimes nacionalistas que ameaçam a “estabilidade” são chamados de “maçãs podres” que ameaçam “estragar a caixa inteira” e de “vírus” que podem “infectar” outros países. A Itália de 1948 é um exemplo. Vinte e cinco anos depois, Henry Kissinger descreveu o Chile como um “vírus” capaz de enviar sinais equivocados sobre a possibilidade de mudanças sociais, contaminando países distantes como a Itália, ainda “instável” mesmo após anos e anos de atividades da CIA para subverter a democracia no país. Os vírus têm de ser destruídos, e os demais países, protegidos da infecção: em ambos os casos, a violência costuma ser o meio mais eficiente, deixando atrás de si um rastro de morte, terror, tortura e destruição.

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  5. O “nacionalismo radical” é por si só intolerável, mas constitui além disso uma “ameaça à estabilidade”, outra expressão que tem um significado especial. Quando Washington se preparava para derrubar o primeiro governo democraticamente eleito da Guatemala, em 1954, um funcionário do Departamento de Estado advertiu que a Guatemala “se tomara uma ameaça crescente à estabilidade de Honduras e EI Salvador. Sua reforma agrária é uma poderosa arma de propaganda; seu abrangente programa social de ajuda aos operários e camponeses na luta vitoriosa contra as classes mais altas e as grandes companhias estrangeiras tem um forte apelo sobre as populações de seus vizinhos centro-americanos, onde as condições são semelhantes”. “Estabilidade” quer dizer segurança para “as classes mais altas e as grandes companhias estrangeiras”, cuja prosperidade deve ser preservada.

    Tais ameaças à “prosperidade do sistema capitalista mundial” justificam o uso do terror e da subversão para a restauração da “estabilidade”. Uma das primeiras tarefas da CIA foi uma operação de larga escala para minar a democracia italiana em 1948, quando se temeu que o resultado eleitoral pudesse dar errado; planejou-se uma intervenção militar direta para o caso de falhar a subversão. Essa operação foi descrita como destinada a “estabilizar a Itália”. Pode-se até “desestabilizar” para alcançar a “estabilidade”. Assim, o editor do jornal semi-oficial Foreign Affairs explica que Washington precisava “desestabilizar um governo marxista livremente eleito no Chile”, porque “estávamos determinados a buscar a estabilidade”. Com uma formação adequada, pode-se superar essa aparente contradição.

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  6. Os regimes nacionalistas que ameaçam a “estabilidade” são chamados de “maçãs podres” que ameaçam “estragar a caixa inteira” e de “vírus” que podem “infectar” outros países. A Itália de 1948 é um exemplo. Vinte e cinco anos depois, Henry Kissinger descreveu o Chile como um “vírus” capaz de enviar sinais equivocados sobre a possibilidade de mudanças sociais, contaminando países distantes como a Itália, ainda “instável” mesmo após anos e anos de atividades da CIA para subverter a democracia no país. Os vírus têm de ser destruídos, e os demais países, protegidos da infecção: em ambos os casos, a violência costuma ser o meio mais eficiente, deixando atrás de si um rastro de morte, terror, tortura e destruição.

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Eu espero acordes que não desistam de cocainar meu dia, mesmo quando já nasceu morto. Espero notas que não apliquem a tortura do t...