quarta-feira, dezembro 15, 2010

MURILO RUBIÃO NA MINHA GOMA


A campainha tocou e ninguém quis atender. "Encrenca", meu tio considerou. "É o Onofre" disse eu, tentando ser o engraçadão. Fui até a cozinha, bizôiar o monitor da câmera. Nada. Ninguém. "Interessante". Retorno ao meu gibi. Ah, não é gibi. Trata-se do pequeno caderno azul. Caderno de conferências.

A campainha tocou e era Murilo Rubião. "Prazer, mestre". "Pode entrar!" Ele assentiu, todo terno, com a cabeça. "Senta aí, chefia". Eu, ansioso-falante-maionese vendo o grande escritor todo aprumado em traje socialzóvisky dos anos quarenta, arrematei: "Quer uns bolinhos, um refri, águinha gelada?" Numa rara candura, murmurou "Não, obrigado...". "E cachaça?". "Obrigado, não estou com sede."

Fiquei ali, sentadão de berma, tomando água geladona no bico. Eu de buenas, no meu sofá de acrílico. O Rubião na poltrona. Comigo aquela sensação de "espera só até os filhos da puta dos meus amigos saberem disso!" aí que fui correndo anotar duas frases ditas pelo mestre. Preciso do caderno azul. "Cadê ele, caralho?". Estava aqui até agora. Saio de rolêzinho. Pela casa. Pronto. Estava jogado, todo torto, de braços abertos, ao lado da minha cama.

Volto para a sala num passo maroto, (gingadão meio NOFX?)meio rápidão, mas sem dar pala. Certifiquei-me que o lápis apresentava-se usável. Mão esquerda à postos e o caderno subitamente torna-se belo pastel de palmito. Frito na hora. De massa cocrante. Em proporções famintas. O que antes era capa dura, reina como tiquinho de azeitona rioclarense, em conjunto à outras alegorias, sachês of my life.

As folhas brancas em linhas descansadas deixariam de existir pra virarem área de mordidas e dentadas monstro. Comecei a suar. Principalmente nas laterais do pescoço - área mais atingida pela desagradável suadeira. "Aopa tio, valeu por ligar o ventilador" - "De nada, Mário". Fiz um jóia invisível pra ele. Sempre gente fina, mui solícito, o meu tio Heraldo.


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