Adílson e Carlos Gérson conversam
em frente à residência do último. A prosa flui marota, calma, leve, com pausas agradáveis e audição mútua. Os sujeitos são trintões e apenas zombam do bigode da mulher do Valdemar. Tudo está bacana, numa boa, até que um trapo humano resolve dar as caras:
o oportunista aborda a dupla sem cerimônia; deve ter uns vinte anos e cacetada,
mas aparenta o triplo. Está bem trajado de sujeira e, completamente descalço e arrombado,
cheira a carniça no ponto.
- Dá licença nas ideia ae, posso
olha o carro?
Gerson interrompe a prosa,
visivelmente menos irritado com a solicitação do que com a súbita intromissão.
Adílson respira pela boca.
- Cara, poder você até pode, mas
eu não quero.
- Ô tio, eu olho pro senhor, na
moral memo...
- Bicho, desencana.
- Então, deixo dar uma lavada no
vidro vai.
- Não.
- Ô loko, tá tirando...
- Meu, não pedi pra você me fazer
nenhum favor e muito menos me encher o saco.
- Tá certo, tá certo... Deus é
justo. Deixa com ele.
- Deus é justo e você é surdo.
- Ae, é um assalto.
- Hahaha, que?
- Aqui ó
E o sangue pintou as pedrinhas, e as rodas do velho Fusca agora são Flamengo.



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