O árbitro era o mesmo de Corinthians X Ituano. E eu estava ali,
fiel, torcendo. Nervoso, percorria a arquibancada, dava voltas ao redor do
campo, frenético, agitado. Sabia que nosso time era inferior tecnicamente e
também com bem menos tempo de treino e preparação para aquela competição.
Contudo, vencemos os dois jogos e estávamos ali na final. Sabia que havia uma
gana rara no espírito dos nosso atletas, éramos matadores, vingadores em um
tempo tedioso de pessoas previsíveis e sem um níquel de imaginação.
Eu gritava aos brados: todo mundo se ligou no poder que emanava
aquela voz grave do lemão. Inspirado pelo velho espírito dum arredio Muddy
Waters, o estádio inteiro podia me ouvir. Algumas pessoas se perguntavam de que
lugar eu estava gritando, tamanho eco absurdo que abraçava suas mais variadas
orelhas, sob aquele sol desafiador, com a propriedade nata de emboscar até o
arco do capeta. Estralava o fogo, duas da tarde, e viriam depois as cãibras,
pernas de chumbo – e num vacilo acabamos por tomar o primeiro gol. Merda. Eu
batia palmas, grunhia, pedia força. Os caras sabiam que aquilo era só um revés
qualquer.
Nosso goleiro, além do nosso rodado e talentoso camisa dez, mais o
fulminante atacante eram o cérebro e motor, fúria e determinação avante. Os
outros também eram heróis. Nada de pieguismo: apenas atitude e companheirismo
dentro das quatro linhas. Guerreiros humildes, mas com a presença de tratores.
O primeiro tempo acabou e eu continuava gritando. Registrava algumas fotos, pra
daqui oito anos relembrar saudoso perdidas memórias no fervor daquela agradável
experiência.
Eu conversava com um amigo que friamente dizia que torcia para que
os dois times perdessem, até que saiu nosso gol de empate. Numa bonita jogada,
em articulada troca de passes dentro da área. O jogo era nosso. O sol se
opunha, mas brigávamos, eu gritava até estrangular o céu, rouquidão nem pensar,
muito menos desânimo no esquadrão. Então veio o do segundo gol dos caras. Que
desgraça.
Instantes depois, nosso goleiro praticaria uma das defesas mais
impossíveis que já presenciei. Voando sem fim, numa ponte destruidora, a mão
direita milagrosa espalmava fora um golaço, agora salvo de maneira plástica,
inesquecível. Era chegado nosso momento na partida. Então aconteceu. Nosso
atacante, terrível figura para a defesa adversária (que a essa altura se
peidava toda, penando num visível cansaço) recebeu um belo lançamento pela
direita. Em seu destino, uma vida toda pela frente. Avançou com a determinação
de um decisivo craque, tinha a passada certa, precisa. Na entrada da área, com
ela dominada, vi o lance todo em slow.
O talento: a sós com o goleiro, percebeu que como este se adiantava, a sutileza
delinearia um arremate por cobertura. O toque – mágico, inenarrável – foi uma
terna, leve viagem onírica, intransponível, no eterno prazer que é a iluminação
do verdadeiro futebol arte.
Eu vi de perto aquela pintura, acompanhando a bola lenta, rugindo
e sorrindo, decisiva, dona do endereço certo, vi o nosso empate, e a
consagração. Eu, à beira do gramado, só que do lado de fora, e dentro do campo,
poucos centímetros de mim, estava um dos nossos treinadores. Sim, voltando ao
lance: a bola prolongava sua trajetória secreta – e o nosso craque vira-se para
a beira do gramado, na lateral do campo, e começa a comemorar com classe,
merecidamente – filtrava os ânimos, efusivo - da angústia para a euforia. Mas a
bola não havia cruzado a linha, o travessão a fez quicar, e, capricho dos
deuses, trouxe o zagueiro adversário para que a levasse dali, e também o nosso
empate. Tristeza. Uma pena. Estranho golpe, alegria quebrada para nossa
torcida. “Cinco minutos”, anunciava o técnico adversário, do banco de reserva.
Exaustão. Jogadores arrastando-se, lamentando o azar. Mas sempre
de cabeça erguida. As pernas podiam estar pesadas, mas ainda assim partimos pra
cima. Pressionamos e pressionamos: tomamos o terceiro gol, no finalzinho.
Éramos vice, mas justos heróis.
Naquela tarde, nem percebi o sol, apenas cruzei o campo para
cumprimentar a rapaziada, os técnicos, a equipe adversária, dando os parabéns a
todos pela lendária atuação, nunca será demais louvar o quão disputada fora
essa final. Alguns me agradeciam o incentivo, enquanto fotos eram tiradas.
Chegou a hora de partir. Voltei a trabalhar feliz naquela simpática tarde de
quinta-feira, trazendo comigo um orgulho transparente, ainda que com um
restinho de melancolia no coração.



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