sábado, abril 14, 2012

MESTRE ZANZIBAR





Que mais senão a alegria de reencontrar meu antigo espaço? Era isso o que uma das moedas deve ter pensado quando encontrou o velho balcão do Big Bar. E quem levava consigo a tropa (ela e mais três) era o Zanzibar, grande amigo e parceiro. Com Zanzibar, tudo continuava empolgante conforme os antigos churrascos anuais dos velhos amigos do Bayeux. Mr. Rainbow alugara a chácara mais uma vez, e o pessoal apareceu perto do meio dia. Toda a macacada pirando numa nice, memórias bacanas com muito metal, cerva gelada e a tradicional piscina, inimiga dos sábados chuvosos.

Quando o encontrei, na noite de sábado, Zanzibar estava, digamos, já alto de pileque, o churrasco encerrado e o amigo bastante à vontade: trajava camisa regata sem manga, shortinho de pedreiro futebol anos setenta e os pés descalços. Havia parado pruma prosa e tal ali perto do Mc Donalds. Os participantes do churrasco estavam ali agrupados, quando apareceu Grelinho, um gigante de dois metros que não pode dar um passo pra fora de casa sem que a mãe o incomode pelo celular – “íííí, minha mãe cara, deixo atender”. O Grelinho gentilmente estacionou seu carro esportivo ali na noite de sábado para mostrar uns sons chapados do João Donato para aquela nova geração que gastava os últimos cartuchos do sábadão. Tudo isso num volume alucinante, pra delírio da Guarda Municipal, que comia uns cachorros quentes com refri por ali.

Quando eu e minha patroa resolvemos dar uma passada por lá, o relógio já devia marcar quase meia noite. O Zanzibar estava com um bonito sorriso no rosto, bem simpático, gesticulando heróico os dedos de ambas as mãos, num role histriônico cheio de zuerinhas internas. Cheio de propostas sutis, sua fala se renovava no maior gás para novos temas mui peculiares, e geralmente eram feitas pausas para novos anúncios e lá ia o Zanzi ironizar aspectos legais da existência. Tudo sem crise. Tudo nos trinquis. Celebrava a vida e não deixava de lado seu absurdo poder de síntese: “fera.” “Foda”. “Fodido”. É um laconismo que prima por slogans como “Esse cara aí é uma merda”. É bom conversar com você, mestre Zanzi. E quando você está de pileque é mais massa ainda, sob vários aspectos. Mas e a sua insistência?

Naquela noite de sábado o assunto basicamente era esse: moedas de vinte e cinco centavos e o pedido mágico. Você disse que comprou um rolê no Big Bar,  me vê tudo isso aí em chiclé, e sacou a arma, lançou mão do procedimento – você viu a bola de boliche dos sonhos naquelas quatro moedas de vinte e cinco centavos pelo balcão. Achou que viria uma penca de guloseimas, uma pá de ping pong - esperou já gargalhando, glorioso. Qual não foi sua surpresa ao constatar que a Bala Chita andava por debaixo da terra e a alta dos chicletes um pesadelo?

Com as pupilas vidradas, radiante, repetia “me vê tudo isso de chiclete, haha!”. E despencou as moedas por sobre o balcão do templo da avenida sete. O sorriso perpétuo anunciava o bis: “de vinte e cinco centavos, hahaha!! Vibração garantida, gargalhadas em série. Estava em êxtase, por que parar de rir? E relembrava o gesto, as pernas nuas, um pedreiro intelectual.

E minha amada lhe escutava atentamente, eu juro. Seu primeiro bocejo fora incidental. No outro lado da prosa, Grelinho trocava experiências sociológicas e lembranças sexuais com mestre Barquinhos; enquanto a mãe não ligava, relembrava tumultos de uma juventude brasileira bem mais politizada na década de sessenta. “Quatro moedas!!” Vinte e cinco centavos gordinhas bolotas douradas, bolinhas de gude tilitando na pista de pedidos do Big. Quanto é o chiclete companheiro? Pedido efetuado, o rosto contido: só isso? Tudo o que Zanzibar encontrava para dizer era sobre aquele dinheiro camarada, que não precisava nem de bolsos para fluir bem massa.

Você inspira e diverte, mestre Zanzi. Podia emprestar-lhe trezentas moedas, se isto ajudasse. Mas não era a quantia de bufunfa. Não, não era: apenas existia naquela noite monotemática de sábado o conjunto harmônico, quatro moedinhas de vinte e cinco pratas. Grelinho cuspiu, acendeu outro cigarro, Barquinhos deu um longo trago na latinha de Brahma. Entre um bocejo e outro da amada, tudo o que Zanzibar reuniu pra dizer longe das moedas foi – “fera”. E a risada níquel se expandia pelo céu estrelado de Rivers.

Os outros amigos que estavam por ali pensaram em abrir a braguilha e despejar o líquido quente do churrasco, mas a polícia estava alerta. Um homem que consome muito churrasco é lento e pesado, e ofega feliz, herói de engradados em brasa e vinagrete. O que o atendente do Big fez? Vê tudo isso de chiclete, quatro haha, quatro moedas, eufórico Zanzibar, de shortinho, camiseta regata sem manga, invade o Big Bar descalço, impávido, com o carro escancarado na avenida sete, noite de sábado movimentadíssima, a chave no contato.

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