sexta-feira, maio 04, 2012

MAIS UM MOMENTO DESELEGANTE


Mestre Barquinhos andava por um matagal complicado. E bem complicado, quase esbarrou no sapo pink que estralava um Poison. Mestre Barquinhos azulejou o passo, sem demonstrar medo ou excessiva inquietude. Salatiel foi o pai de Zorobabel, explicou-lhe alguma voz a milímetros do cangote, em mais um momento deselegante.

Mas Mestre Barquinhos ignorava tais irrelevâncias terrícolas. Continuou desbravando o rolê. Condomínio Green Rivers em cena, lá pros lados da avenida vinte e nove. Passara a tarde por lá, num desanimado churras dum pessoal formado em Biblioteconomia. Havia resolvido tirar umas fotos “lá pra baixo”, pedindo licença pra geral. Talvez aturdido pela forte caipirinha do Paulo Ranho rapidamente Mestre Barquinhos se perdeu do resto da turma. Ainda assim estava numas de arriscar uns passos bacanas, heróicos, independentes, quando emergiu de trás duma gigantesca moita a tenebrosa Digleide. Sim, a decrépita mulher de maltratados fios negros até a altura dos joelhos, o rosto derrubado de baranga mor em mares de irrecuperável ressaca. Num primeiro momento a velha bruxa assobiou-lhe, enamorada – depois emborcou num longo gole todo o Chapinha. Até esqueceu que o fitão estava por lá, visto que abaixou a carçola sem pedir licença e pagou a necê moita monstro adentro. Mais um momento deselegante. Mestre Barquinhos regulou novamente o passo, desviando o olhar sem muita pressa. No cardápio da mente, a questão: que fim levou a tia Edna? As panturrilhas começariam a arriar e uma visitinha noturna ao estabelecimento não seria má idéia.

Foi então que o desbaratinado fotógrafo avistou uns cinqüenta metros acima uma árvore incrível. Parecia até zoeira: o vegetal lenhoso abrigava pencas de chocolate BIS! E o detalhe: nenhuma pele azul envolta no processo, apenas Mestre Barquinhos agora ali trepado, devorando oitenta barrinhas por minuto.  A presença repentina de Mr. Rainbow não lhe causou comoção: meu, que lance é esse? Explicou sem muita paciência Barcote aquele acontecimento cabuloso, recomendando ao amigo fazer o mesmo. Mr. Rainbow negou – arregalou os olhos: vixi, chuuuva!!! O mundo em água desabou.

A chuva era mesmo zoada e trazia além do granizo um agourento programa aos perdidos no extenso condomínio. Mr. Rainbow ergueu os olhos para as nuvens mais uma vez, admitindo o insucesso. Barquinhos estava marrom. Mr. Rainbow e sua mente demasiado prudente sugeriram então o caminhar estóico através do verde espaço. Apenas ele e Mestre Barquinhos, sem viadagem - até que a chuva transformasse aquela proposta no conforto da Tia Edna ou quem sabe no Bar do Bola. Ultrapassando o silêncio alheio, Mr. Rainbow lançou-se contra o amigo que devorava as barrinhas copiosamente; num pulo pra lá de ágil puxou-lhe pelas pernas, arrancando-o da árvore de bis, e os dois rolaram graças a um desavisado barranco.

Estavam agora na Supergame, lendária locadora de games que fez a cabeça da negada de Rivers nos anos 90. Isso sim é que é belle époque, bradou Barquinhos, agora livre do caramelo. Puts, não é possível – quem estava ali megatranquilo passando um pano na prateleira dos lançamentos? Mestre Zanzibar! A atendente, posicionada no subterrâneo balcão amarrou um bico notável. Não queria zumzumzum na loja. Aumentou o volume daquele que era o primeiro play do Gabriel Pensador. Pronunciaria meses depois “Fifa Sósser” se algum pirralho perguntasse por futebol pra Mega Drive.

O aperto de mão de Mestre Zanzi parecia de aço perto, pertinho da patreleira do Super Nes. De responsa. Dali o pessoal zarpou pra Sorveteria Nevada. Pride aquele trio. O céu escureceu e em algum lugar de Niterói o craque Zico vivia do passado.

O centrado Mestre Barquinhos, que soube ser ponderado ao longo de quase três décadas, sendo bem quisto em vários círculos terrícolas, pariu boas relações ao longo do América. Sincero Barco. Com o pote dolorido pelo impacto do barranco, meio atordoado, percebeu que em seu espírito insinuava-se intrigante roteiro cinematográfico: o drama da mexerica gigante, armada de perna e braços humanos. Mexerica que prometia fanfarronice pelos arredores da Grande Cordeirópolis.

Mr. Rainbow no entanto descartou a ideia, por mais que no final da película um vibrante Mário Gomes lutasse ao lado dos desvalidos gomos da já arrebentada bergamota. Os dois amigos passaram a procurar a saída do condomínio, bastante estafados. Quando pensaram em desistir e passar a noite por ali mesmo, Digleides apareceu, soltou uma bufa treme terra, o puro gostão do ovo, em mais um momento deselegante, meu povo.

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