segunda-feira, junho 04, 2012

As armas da rua cinco



O homem que marcha pela rua cinco é um homem iluminado. Pela rua cinco o ar resplandece mais vivo, e o cansaço definitivamente esquecido. Eterna rua cinco, tão especial, que mesmo abrigando um aristocrático colégio tão mecânico-banal, alheia reluz, radiante – e através de seu vulcânico âmago de rústicas paixões, viagens retardadas e sonhos malucos permanecerão puros e lunáticos, possibilitando aos mortais o completo desvario diante do mundo das razões. Ao longo de mágicos meses derretidos, ainda levaremos em cafeinados acordes otimistas nossos dias pela rua cinco:  mais que feliz, a bélica rua em favor da autosimpatia triunfará, simplesmente.

Rodando e remando pelos céus da rua cinco, o pesadelo desfila como mariquinha clamando por água, dinamitado. Do alto para o velho asfalto, podemos conferir a guerreira Lojas Cem em incendiárias ofertas - que por anos e anos fizeram a cabeça das famílias loucas pelos prazeres do sofá e do garantido ócio. Nas ávidas manhãs dos sábados, nos falantes o locutor avisava, para alegria de Rivers - ainda bem que tem: Lojas Cem! Inclusive em 2009 trabalhei como locutor das Lojas Cem, e com a grana recebida surgiu o primeiro disco do Garrafa Vazia. E falando em rock, falando em som, um pouquinho mais adiante, sentido avenidas pares, surge a questão: quantas vezes não precisamos da salvadora ajuda da Laser Express? Lendária locadora de cd’s com um esquema de locações deveras aprazível e inovador, a Laser fez história. Quantos discos clássicos não foram reverenciados nos anos noventa em disputadas sessões de cópias pró fitas k7, tão saudosas e românticas, assim influenciando gerações e gerações de rebeldes teenagers pelos lados de Riverside?

Em longas caminhadas pela rua cinco, sigo em leituras de placas e geral desmonte de semblantes, sempre numa nice, sempre tranqüilo na mente o boné é o sol. Então ouço vagarosas senhorinhas orando pelos cantos, invasões de grandes expectativas iluminam as velhas fachadas das lojas do centro, e em sagrados devaneios topamos com as tortas janelas do acaso, esbarrando despretensiosamente com os dementes estouros da ilusão. Ah meu amigo, pela rua cinco descobri que sonhar é muito mais fácil do que reclamar.

Klébi, o fanático, esteve na rua cinco em 1984. Nesse época ele descarregava toda sua tensão em elétricos baques numa famigerada casa abandonada. Os tiras sempre em sua captura, mas o Klébi não existia para os cops, e mesmo assim frequentava a Sorveteria Xodó e jogava a maior areia nos olhos da mulherada, influenciado pelos discos do A-HA. Dois anos depois, o cara de olheiras seríssimas que usava coletinho pardo como carro chefe, pisoteado seria num polêmico incêndio, logo ali, num prédio chiquérrimo em Campinas.

Junho de 2012. A rua cinco exibe suas armas: solitárias almas pelos arredores da cidade estão convidadas para o eterno passeio. Penumbras nevermore: basta querer que os cartuchos da elevação vão estourar, chefia. Remexendo as inquietudes do coração, a cerimonialista Margarete viu na rua cinco uma vital solução. Por lá, o gigante Janjão (que é a cara do Jaws, clássico vilão da série James Bond) andava louco de cachaça, zunindo como a ROTA, e ora vislumbrava ets ora zunia como a ROTA!

E o Marcelão? Estudei no Marcelo Schimidt em 1987, em 1988. Lembro-me saudoso das aulas de português, redações de sonho, que nostálgicas vão escoando pelos labirintos da memória. Nas aulas de Educação Artística pelos porões, e os cintilantes recreios dente de leite onde a mulecada partia pra porrada e quem fugisse do pau era ovacionado em mares de xingos: “Mijô! Mijô! Mijô!”. Suaves soberanas, ensolaradas tardes aqui vos guardo, porque através dos tempos platônicos, o grande museu nunca se apaga. As armas da rua cinco. Para a rua cinco, ninguém é invisível. Ela apenas municia seus filhos, selvagens ou cavalheiros, ampliando os terrenos do sonho.



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