sexta-feira, outubro 19, 2012

BIKE SOUL BROTHER


Alucinado, psycho pedalava pela avenida oito - via de mão dupla, rush hour. Um barulho da porra ele fazia - porque enquanto guiava a magrela, com a mão direita empurrava um carrinho de supermercado. O carrinho rapidão destacava rodinhas desgovernadas, numa motivação little trêbada, talvez.  Bati os zóio  no piloto-malucão, negrão kamikaze pós Living Colour, you know - que simplesmente seguia sua jornada, absorto em seu universo paralelo e completamente delineado, selvagem symphony and fuck this people, fuck this people. O carrinho seguia destrambelhado pela avenida oito em horário de pico, velozmente costurando o asfalto - dentro dele, umas pipas coloridaças gigantes! - e BOOM! Porra, fodeu.

Bateu num carro zero quilômetro, é muito envolvimento. Semáforo, pessoas, reações, linguagem. A porta do motora então é aberta com extrema violência. De lá sai o descamisado peludão quarentão, o rei da bocha. Consigo está a  mulher, que também resolver sair do carango quatro portas.  Com eles, o minúsculo filho, uma criança que está no banco da frente gritando - PÁRA PAI, PÁRA PAI!!!! Silêncio em Riverside.  Como que sob o lancinante uivo, lúcido confronto, a avenida oito agora surge talvez como aquela tarde do Maracanã em polvorosa após um golaço de letra do Zico, só que de maneira inversa. Eu contemplo a cena à média distância, vejo o carango livre de qualquer risquinho, e um humilde pedido de desculpas, sussurrado, quase como uma invisível chama conciliadora. E observo o machão de merda ameaçar o bike soul brother:

- Fica andando feito retardado com essa porra, nem pra ir devagar caralho!!

Porém, assustado com o iminente engarrafamento, recua, e a pose dos passos lentos e caricatos, de súbito desaparece. Pega a camisa dentro do carro, como se vestisse de medo o gogó agora em perigo: coloca a primeira e se despede do patético, uma pançuda mocinha covarde em triste retirada.

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