sexta-feira, novembro 30, 2012


Você briga pelo telefone. Um só momento de mórbidas acusações. Ela escuta, claro, e você pode até ter razão, mas aí pelo telefone a briga não é muda: como se  remasse a própria fúria, eis a queda de todos copos americanos do sossego, perfilados numa boa em cima daquele silencioso balcão, cinco minutos antes. Merda. Num golpe, a razão no chão. O balcão acusa você, é o ciúme? Desolado,  também o dono do estabelecimento acena lentamente com a careca suada, diz que tudo isso é desnecessário e juvenil. Mas suas mãos não pensam pra falar. O novo impulso envolve a nova porrada, o freio está desligado, e novamente os copos vão pro chão. Puto pra caralho, agora o telefone é uma merda maior - assim não dá pra sentir, não dá pra sentir, será que sinto anestesia de raiva ou raiva anestésica? Sei lá. 

E amanhã você nasce arrependido, terrivelmente apaixonado, perdido ou chapado de interrogações, de ciúme prolongado, doente da alma, doente do coração: maldito telefonema suicida aquele, ansioso ainda relembro o silêncio no balcão.

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