quinta-feira, dezembro 27, 2012

DAÓRA


RINGO NÃO MENTE


"O telefone do Sebastião Casagrande é o mesmo da época do Cabeça Dinossauro."

OS KILLERS DE RIVERS


Eles queriam foder com tudo. Porém, acabaram dosando de maneira equivocada o tom das piadas. Foram expulsos do Galápagos a tiros. E hoje, num tranquilo churrasquinho de domingo, riem do episódio, alucinados de goró. De chinelo no pé, descamisados, vibram, estão lúcidos. Ao som de uma fraldinha mal passada, na grelha executam Wrathchild.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

MERECIDO

As viaturas da hipocrisia estão roncando. Assim, há uma pequena pausa na ronda do patrulhamento ideológico de internet. Seres sensíveis e politicamente corretos também tem direito ao sono.

VIDA NOTURNA EM RIVERS, PARTE I


Em certo sentido, frequentar o Madalena é o mesmo que assumir que a vida não passa de uma dobradinha musical da Mariah Carey com a Céline Dion.

O CASAL SAPATÃO-FÓFIS


Um casal adolescente, um casal "sapatão-fófis". A meiguice através de uma avalanche de fotos para brindar as redes sociais. E pessoalmente elas agem assim: a primeira a arrota, depois a vez da outra. Fracos, fétidos ou nulos, tanto faz. Elas não conseguem atrair a atenção desejada. E então passam a falar pelas costas de negros, nordestinos e gays. 

sábado, dezembro 22, 2012

A gente ficou na cama assistindo o canal Investigation Discovery. Um programa sobre crimes que ganharam Hollywood. Como o caso da serial killer que traída pela ex-namorada caminhoneira termina seus dias torrada na cadeira elétrica. Ou da professora Helena versão States que depois de um ano de casório se envolve numa orgia com seus alunos pique malhação e convida a galerinha pra despachar o corno do marido. E o fazem com um berrão old school: a sangue frio, na sala de tevê o presunto é encontrado estirado no tapete da sala pelos tiras, bem na hora do jogo dos Lakers. São crimes bárbaros numa dublagem épica, vale a pena curtir.

ALVOROÇO NA RUA DOIS COM A AVENIDA DOIS


Saindo da Utilar. Época de natal na velha Rivers. O papo é de esquina, entre mãe e filha. A matrona dispara:

- Vai, atravessa com a rua cheia de caRRo!
- Não começa hein!


E a garota retira o dedo indicador do nariz e atravessa a rua, driblando sem pressa uma Biz amarela.



NA FAIXA

Bom de sala de espera de veterinário é filar umas balas freegeels de sabores sortidos.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

ERIBERTO



Lá de cima do telhado, ele ameaçava o mergulho. A mulher aos prantos. O filho, que de tamanho batia-lhe na altura da cintura, purificava seus demônios em asas da paura. erguia-se aos berros, alma perdida em legiões de gritos em ecos tingidos de medo mirim. O condomínio era longe de tudo, e eles não tinham vizinhos. Uma chácara afastada do mundo. E na ponta do telhado, o Eriberto. Sua expressão era de homem distante. O sorriso perturbado-prazeroso desenhando-lhe no rosto de menino envelhecido a boba afeição pela pronta fraqueza, a estupidez locomovendo um coração de papelão.

No lento balanço daquele corpo gordo e banhudo, Eriberto assustava, tornava a anunciar o golpe, ameaçando a queda, o olhar cego para o alto, para baixo, aleatório. Ele tomba um pouco mais pra frente o peso do próprio corpo. Está perto de cair. Então recua. Para o filho e a triste mulher, o replay da sinfonia daquele suplício. E o teatro recomeçaria. Pra frente, pra trás: a impotência da esposa garantia o espetáculo. Não havia como recorrer a alguém, pedir ajuda, auxílio, nada. Teresinha também temia que o filho herdasse a composição medrosa do pai, e assim legasse seu lema, o desperdício de um covarde como bíblia de bolso. E o Eriberto continuava balançando em cima do telhado, sem camisa.

No rosto da esposa, lágrimas de ódio. Lágrimas fininhas. Danificavam-lhe a maquiagem tão barata, mas era a mão direita que pulsava o amor pelo Carlinhos. O filho de quatro anos de idade, louco por pipas e pássaros, grudado a ela, gritando inutilmente. Gritando a cabeça vermelha de sangue quente, garganta raspando pus nos amplificados ruídos surdos, em vão.

Eriberto era um flácido quarentão. Mais um barrigudo acomodado sem rumo, um grande loser. Era mole e devagar. Desmerecido no trabalho. Sem amigos. Um ex-farinheiro que adorava descumprir promessas de manter-se sóbrio. Que adorava desandar em menos de quinze dias de sobriedade. Que de abstêmio voava para a rápida mutação: era hora de protagonizar showzinhos como este. Não era homem de se matar, não. Mas seu Mizuno direito patinou numa telha irregular e o gordo despencou com tudo pro chão, o Eriberto está eunuco e tetraplégico.



quarta-feira, dezembro 19, 2012

O HOMEM MISTERIOSO




O pequeno sujeito está num canto da sala. Leva mais um cigarro à boca, tragando sem a menor pressa. É noite de natal na velha Rivers. Os amigos estão reunidos na casa de Jeff Sono.

E entre eles, o pequeno sujeito. Que some do nada. Que aparece também do nada. Que ronda espaços vazios, espaços humanos. Que causa súbitas interrupções no andamento, no fluxo natural de qualquer ambiente da casa. Dentro da casa de Jeff Sono, a noite guarda alguém que abruptamente silencia o bate papo dos amigos. Seria um vulto? "Não, não é ninguém, continua". A conversa retorna, mas um pouco atordoado um dos oradores já esquecera o assunto, a última frase. Até que alguém avista o vulto. Perto da cortina da sala? Quem sabe? Não, ali, perto da porta. Sim. Olha ele ali. De pé, impassível.  A desviar facilmente os olhares dos presentes. Você acompanha a  cabeça da negada apelando prum violento zoom da curiosidade – e o resultado é o homem misterioso e o seu cigarro, à espreita, quase que escondido em plena noite de natal. Parados, os dois: ele e o cigarro aceso. Calados. E de pé, no canto da sala,  proposta que continuará sendo a tônica da noite. Randômico e onipresente pelos cantos da casa de Jeff Sono, em mais uma noite de natal na velha Rivers, reluz o pequeno sujeito e seu cigarros sem fim.

Oculto friend. Eterno invasor em teletransporte de cômodo caseiro. Elemento surpresa de natal, vagando como aquele velho visitante de recintos mil nas ondas da sutileza. O pequeno sujeito de olhos azuis que profere poucas palavras, dando a entender que sua máquina cerebral é superior ao primário mecanismo da fala. Principalmente aquela destinada a comunicar coisas óbvias e completamente desnecessárias, quase sempre dentro dum contexto mais imbecil ainda.

De modo que os amigos haviam organizado a festa de natal na casa de Jeff Sono. E para entrar num clima de zuera, o manequim obrigatório sugerido anteriormente reverenciara um tema em especial: a LAMBADA.

E lá estava o homem misterioso também fantasiado. Como se aparecesse na função lusco-fusco, metade humano metade fantasma (levando-se em conta que a iluminação era branda propositadamente em alguns ambientes da casa). É possível afirmar que uns dois ou três convivas certificavam-se de sua presença através  da garantida observação do fluxo de  fumaça nas extremidades dos cômodos. Sem dúvida, afinal não era raro vê-lo puxar um cigarrinho atrás do outro. Acendia-os, porém, na base da serenidade. E enquanto isso a lambada comia solta. Alguns acabavam suas  bebidas e com alegria reanimavam seus copos, conclamando aos poucos sóbrios  o caminho da zuera coletiva. Sei lá o que isso significava, mas era engraçado ver Irene  (que não havia sido convidado a princípio) dar inúmeras cambalhotas pelo estreito corredor que ligava a sala até a cozinha. 

O fato é que paralelo a isso, outros convivas entravam no banheiro de fininho, com uma tremenda vontade de peidar reservadamente – apenas para evitar passar um carão na frente dos amigos mais sérios e conservadores. O que pensava o anfitrião disso? "De boa, só não caga no chão."

Em dado momento da noite, encaminharam-se todos para a cozinha. A cena: uma aconchegante mesa retangular ao centro. De mármore, é claro. Ao norte a pia, fazendo dupla com o fogão. E falando em pia, um psicodélico bebedouro de barro em  cima desta majestosa era um dos pontos fortes do local. Bom, mas e o sul da cozinha? Ao sul morava o armário branco. Lar de pratos e ferramentas como garfo e faca, copos, guardanapos e mágicas vasilhas plásticas. Tudo isso com muita música. Para os ouvidos, Kaoma. De sapatos negros e traje social, o não-fantasiado Laércio suíngava pra valer, era lambada no corpo e na alma dando o tom da perpétua descontração groove groove, cortesia daquelas calientes ondas sonoras voando através do aparelho de som lá na sala de visitas,  instalado no outro extremo da casa do grande Jeff Sono.

Voltemos. Dentro da cozinha, éramos em trinta pessoas. A festa já estava no segundo tempo. Lembro-me da fauna. Muitos dos convidados estavam trajando roupas poucos usuais, espalhafatosas, coloridaças, sem abrir mão nem pés de acessórios que marcaram a época do ritmo proibido. Verdadeiros frutos renegados dentro dos dias de hoje, típicos restos de brechós natimortos. “O Natal é uma merda, não tô nem aí”. “É o espírito tosco natalino sem maldade”. “Acabou a cachaça?”. Diversas substâncias ilícitas também eram distribuídas pelo palco, até que o “fornecedor” gentilmente seria expulso com vários pontapés no ass. Uma pena, ironizou Sono, impaciente e faminto. Era essa a cozinha. Alguns de pé, outros no chão, alguns descansando o bumbum nas cadeiras em volta da mesa. Bebaço, Laércio agora arranhava um Michel Teló numa levada Maiden junto ao violão, em remix com a lambada de fundo. 

E então aconteceu.

Um incrível exército de salsichas resolveu dar as caras. Jovenzinhas viriam ao mundo graças ao seu panelão-paizão, podíamos antever os futuros cachorros quentes de natal. O molho era o oceano naquele paraíso sob o fogão. Todos comeriam calados, sendo que alguns morderam muitos dedos durante a operação. Pois éramos vorazes, impiedosos, derrubando versos de extrato de tomate dentro da orelha, inclusive.

Mas ali, não havia ninguém que, sem ao menos perceber, não recebera de assalto uma visita visual, inusitada de alguém muito secreto. Sim. Aquelas almas recebiam de quando em quando os olhares daquele pequeno sujeito calado, taciturno, de olhos azuis. Ora perto do fogão, ora perto da porta que dava para o quintal, lá estava ele, encostado contra a parede, o cigarro na mão.

Esqueçam os sonâmbulos, as aparições de santos ou santas em cidades distantes. Naquela saudosa noite de natal no lar do grande  Jeff Sono, quem roubou a cena não foi o cachorro quente ou a lambada nos mágicos passos do ágil Laércio. Não. Muitos anos se passarão e aquele pequeno sujeito ainda estará aparecendo de repente, nas retinas e durante a soneca dos mais estóicos aos mais fanfarrões do espírito. Porque para alguns ele ainda é sempre será conhecido como o homem misterioso.

terça-feira, dezembro 18, 2012

IT'S TIME TO GARGALHADAS

Você que chorou porque não recebeu convite para posar na última revista JC Magazine, você que passa um fax enquanto lê tudinho das colunas sociais de domingo, do mesmo jornal, principalmente o "Babado Forte". Você que vê os ensaios o texto maduro dos colaboradores da revista, as matérias inteligentes, e as perspicazes entrevistas com verdadeiras personalidades da nossa terrinha, gente da gente. Você não acha que essa é uma revista de humor?

BAD TRIP MONSTRO NA ROÇA

O cara de camiseta preta do Slipknot, do Guns ou do Nirvana.

Coisas que detesto ou abomino, parte I

Aqui algumas, apenas. Como óculos escuros gigantescos, arredondados, deixando a varejeira com cara de  mulher "vergonha alheia". Ou corinthianos acharem que o que jogam é o verdadeiro futebol brasileiro. Algo que nunca existiu e nunca existirá. Mesmo ganhando, o Corinthians joga o bom futebol de segunda divisão. E por último: a revista CARAS de Rivers. Uma tentativa bisonha de imitar com o que de pior tem uma publicação dessa espécie. Ou seria apenas mais uma revista de humor?

segunda-feira, dezembro 17, 2012



Excertos de uma recente e agradável conversa com o corinthiano Gonzales, a respeito do carnaval da miséria.


"E é legal que a gente sempre falou sobre isso. Que é essa coisa da correria, da luta, do gol de cabeça espirrado no segundo tempo, no rebote...

É tipo um futebol de areia com um bando de favelados patrocionados, hehe"

DEZEMBRÃO DOS LOUCOS NA VELHA RIVERS


Jogando dominó mental com o mestre Zanzibar. Ouvindo Volume 4 com o Sabbath. Zoando a galinhada corinthiana, como sempre. Acordando feliz ao lado da Nízinha. Andando pelo comércio da velha Rivers, no dezembrão dos loucos. E quando entramos numa loja de presentes, escutamos um dos vendedores perguntar:

- O SEUS É ESSE?


NA AVENIDA DEZESSETE, O FUSCÃO PRETO


Na avenida dezessete, o Fuscão preto. Todo torto, estacionado. Com zero passageiro. Paradão vai respirando. Dentro dele, a  móvel materialização de inúmeros pensamentos. O formato invisível. Alguns estão apagados, outros também. Ou não estão.  Porque qual é a ideia nova e qual é a ideia velha? Na avenida dezessete, ninguém viu parado o Fuscão preto.


sábado, dezembro 15, 2012



E o velho Ranir resolveu dar as caras por aí. Um dos meus amigos mais antigos, Ranir veio visitar a família e os conhecidos. Depois de uma caminhada mediana, tocou a campainha de casa, uma hora antes do chuvoso sabadão romper pelo céu de Rivers. 


E então o rolê pelo centro e bairros vizinhos. Relembramos as antigas instalações fixadas na rua cinco. Muitos móveis mudaram de estado de espírito nos últimos tempos. Note pelas calçadas, elas contam o quão inimiga pode ser a nova paisagem. Agora destruída toda "inocência do punk rock"? Não. Apenas saudosismo, nasci em Rivers, moro em Rivers. E citamos um ou outro sujeito que morreu de overdose. Mas citamos coisas engraçadas também. Passamos pelo Centro Espírita Fé e Caridade. Esse continua firme, em expansão. Panorama inverso que o da antiga casa bem a sua frente, que estava abandonada. Era uma casa abandonada, mas sonhadora. Agora demolida. Nada por lá. 



Enfim, um sábadão que agora está com a cara de A Whiter Shade of Pale. Horas atrás, a cidade apresentava seu tapete de teto na coloração cinza. E como acordei lá pelas três da tarde, ligando a tela e vendo que existia de fato a rodada do campeonato inglês, resolvi tomar aquele café na Padaria Veneza. Pra lá fomos nós então, eu e o velho Ranir. Depois da caminhada por alguns vazios quarteirões da cidade, espaço pruma jam session. Talvez pra lembrar dos tempos de Bad Bad Trip, espécie de embrião do Garrafa Vazia. No cardápio, uma guitarra e um baixo, fuzz e válvulas, garagepunk na alma. Na sequência da jam, ouvimos um pouco de Blue Cheer, Sabbath, Lizzy, Cactus - e depois o velho chefia vazou, foi-se pra rolar aquele lero especial com os familiares, sagrada comunhão que a varanda da saudade conhece de véio.



E o resto do sábadão continua. Paradão. Não consigo encontrar ninguém vivo no pedaço. O telefone toca, chama, ninguém atende, tudo é inútil, botões são previsíveis. Creio que até os backing vocals da lendária faixa California Dreaming atenderiam alguma ligação minha. Mas, negativo. Pois é. Talvez outro camarada apareça por aí e outra jam session  surja no esquema. Ou talvez o sono convoque minha presença. E morre o céu, o sábado, cinza.

VICE-VERSA

Quem é quem? Geezer Butler é o Belchior ou o Belchior é que o Geezer Butler?

DIFICULDADES

Ele dizia sempre a mesma coisa: "o cara me trata esquisitinho"". Era o tom da  fala dele que o incomodava. Não parecia transparente. Não parecia real. Não conferia credibilidade. Depois de cinco minutos no mesmo local - e ainda por cima com a contínua ação do álcool - a convivência para o primeiro já não seria a mesma. Não. Não era nada fácil. Mentia quando dizia que o achava gente boa e ficava cento por cento a vontade com sua presença no mesmo ambiente. Ele dizia que o cara era tranquilo. Porra, um cara tranquilo não "trata os outros esquisitinho". 

Josias trazia para Jackson a falta de paciência social. Trazia o tédio, o desejo de bocejar a todo instante. Jackson, o chato. Porque será? Recalque? Mera insegurança? Recalqeu? Ou apenas uma maneira indireta de exibir que evitava a todo custo esconder os dilemas e mazelas de um sujeito frustrado? Não sei. Sei apenas que Josias e Jackson conversam pela metade. Duas bichas blefando sem parar.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

SOU TRICOLOR


É a invasão de são paulinos em pleno Pantoja. De sorrisão andante, vão rindo, marotos, na moral - onze da matina na velha Rivers. 

Uniformizados, vão numa boa, jovens e idosos, escolhendo produtos, encarando ofertas, vislumbrando prateleiras repletas de biritas ou preenchendo cupons para mágicas promoções de fim de ano. Apenas almas vencedoras caminhando nas dependências do supermercado, no aconchegante bairro Cidade Nova, agora batizado Cidade Tricolor.

Em marcha lenta, eu apenas prossigo a comemoração. Abordando campeões e campeãs em seus carrinhos de compra, a felicidade persiste. Trocamos ideia sobre a soberania do tricampeão mundial, que na noite passada sem o menor esforço colocou as frangas argentinas na roda, com o Morumbi inteiro rugindo, num primeiro tempo que se confunde com a palavra massacre. 

Eu me saio bem nos leros, e me despeço das prosas com algumas piadas rápidas, puro improviso. Até que vou comprar carne:

- Meio quilo de carne moída de primeira.

- Moço, essa é a fila de frios.

Um homem desastrado e apaixonado não fica magoado por pouca coisa.




quarta-feira, dezembro 12, 2012

VOU DAR UM TALENTO NELA


Fim de tarde no Dejota. Vila Indaiá. Horário de verão. Estamos na velha Rivers. Duas cadeiras amarelas de plástico estacionadas na calçada. Eu e o primo Sebastião Casagrande em cena, ganhando o movimento da rua. 

Surge então um moleque figura, com a camiseta da seleção peruana. Ele vai pedalando sua magrela, de chinelão mermu, sem pressa. Descontraído, vai desenrolando a ideia pros outros dois parceiros, que pedalam suas bicicletas na maciota também:

Eu vou ligar pra ela.
Vou falar com ela.
Vou dar um talento nela...



terça-feira, dezembro 11, 2012

CALOR INFERNAL NA ROÇA


Posto Confiante. Preciso de um café. A única atendente trabalha junto ao computador, dando baixa nos filmes locados. Enquanto aguardo junto ao balcão, um sujeito quarentão acena com a cabeça em minha direção, num cumprimento tipicamente rioclarense.

E então a gordinha atendente lança:

- Vai acertar agora?

Em tempos de calor infernal na roça, a resposta do tiozinho vem de bate pronto:

- Vou acerta agora e inclusive esse sorvete.

UM JOGAÇO ROCK AND ROLL


Algumas coisas dentro do mundo do futebol ainda me fazem sonhar. Como assistir nesse último domingo o primeiro tempo de Manchester United e Manchester City. Isso sim é que é um derby rock and roll, babe


Blues e Red Devils, jogaço aguardado até pelo Marquinhos Teixeira, ex-romântico leitor das crônicas do grande Nelson. 

E onze e meia da matina, pontualmente, a bola começa a rolar. Assisto na íntegra apenas o primeiro tempo. No segundo tempo, infelizmente, acabei cochilando. Quando acordo, é tarde demais. Inclusive saio de casa depois numa puta correria. Preciso ir buscar meu discão do Blue Cheer na Feira do Vinil e Afins no Centro Cultural. Felizmente, chego no horário e saio feliz da vida com meu disco.

Mas e o jogo porra, quanto terminou? Não sabia ainda. O epílogo da treta até então, totalmente desconhecido.  Horas depois, no entanto, checo no site da ESPN Brasil o resultado da batalha. Qual teria sido o desfecho desta sensacional peleja, Marquinhos? 

O placar final é irrevogável: 3 a 2 para os Red Devils. 'Tava engasgado', diria Rooney, que viu o Manchester United perder para o rival os dois jogos na Premier League do ano passado ( um deles por 6 a 1!). E ainda por cima sagraria-se campeão da temporada passado, o Manchester City.


Enfim, um jogaço rock and roll. E a seguir, algumas porcas notas garranchadas durante o clássico:

"UMA CHANCE"

Rooney é o cara. Quando o City parecia dominar o jogo, eis que a presença de Wayne Rooney toma conta de todo o Etihad Stadium, casa do Manchester City. Na primeira bola que recebeu em condições de arremate, num contra ataque em alta velocidade,  o baixinho não decepcionou. Foi decisivo. Mostrou todo seu poder de definição rock and roll. Em poucos movimentos,   Rooney recebeu pelo meio,  e logo na entrada da área, dribla fácil o zagueiro azul. Na sutileza dos grandes craques, o arremate: em câmera lenta a pelota é guardada no gol. Dorme no cantinho direito do goleiro dos Citizens (e também goleiro do English Team). O "Shrek" enganaria toda a defesa adversária, sua torcida, e inclusive o flanelinha Jean.  Rooney atingira o contrapé do próprio domingo. E a pelota estacionada de vez ali, no fundo das redes, numa corrida mansinha, mortal."

Depois, mais essa:

"OUTRO DO ROONEY

Impressionante. Dois chutes, dois gols: este o assombroso aproveitamento  do atacante inglês. Vindo de trás, em jogada pela direita do ataque. Porra louca com fome de artilharia, Rooney se apresenta, invade a área em diagonal pra arrebentar com o City, num chute cruzado, rasteiro, de pé direito. Como um furacão no esquemão surpresa, estufando a rede celeste, determina o balaço da explosão, duplicando a bagaça.  Rooney representa."

E essa:

"O City tinha um puta ataque, o apoio da torcida. Tinha Yayá Touré. E os Red Devils tinham Rooney".

Pois é. Mas o United teria também o chutaço de Robin van Persie. Nos acréscimos, em cobrança de falta, o holandês desempataria o jogo, dando números finais ao jogão do domingão préza. 3X2. Em pleno dezembrão dos loucos, respira o futebol de verdade.




segunda-feira, dezembro 10, 2012

"A FESTA É NOSSA"


Tem que pagar muita grana mesmo pra esses otários da Rede Globo posarem de trouxas, todos felizes e bobo-alegres, nessas chamadas de fim de ano da emissora. E podem reparar que a mais puta é sempre a Suzana Vieira.

domingo, dezembro 09, 2012

RIVERS AND RED CITY


Praça da Matriz, tarde de domingo. Uma senhora e um casal conversando sobre o cachorrinho da grisalha mulher, o trio e o dog bastante descontraídos. A Heart School na rua sete. O colégio nazista da rua cinco. Feira do Vinil no Centro Cultural, último dia. Camaradas e muitas ideias na permuta, mas pena que tenho que vazar. Afinal, logo mais vamos pro encerramento de mais um Fest Clip em Red City. 

Foi um grande prazer fazer parte do júri. E muito bacana conhecer uma pá de pessoas novas e poder assistir uma boa série de videoclipes dos mais variados (vinte e cinco no total). Foram dois dias, com duas boas bandas fechando as noites de sexta e sábado. (Alabama e Mr. Tambourine Man & Special Sauce). Meu grande agradecimento a todo o pessoal da excelente organização, que além do ótimo tratamento e excelente e exemplar condução do festival, nos instalou de modo perfeito para pernoite na full of life and simpatia city. E hoje o encerramento da terceira edição do festival, que trará também show com a banda Macaco Livre. Tudo isso no Revolution Pub, meu chapa.

Mas voltemos para o coração de Rivers. Eis o caminho de volta pra casa, pós Centro Cultural.

Um sujeito que reclama da porca instalação de um eletricista, num pequeno restaurante/lanchonete/boteco da rua cinco. Dou-lhe razão, o ventilador gira unilateralmente, para desespero do encalorado sujeito, já um pouco alcoolizado. A fala é mole, o olhar é devagar, mas a integridade é massa.  "E depois o eletricista diz que tá sem grana, o aperto...". Prossigo. Música de altíssimo nível com batidas mágicas para massagear os ouvidos. São os bonitos carros insufilmados desfilando pela Avenida Vil e Podre de Rio Craro. Meu nariz está entupido ou será que o cheiro de tampico com fezes frescas da avenida entrou de férias também? Prossigo. E lá está ele, mais adiante: o pobre garotinho, que calejado ou não, está lá, de pé. Traz pelo alto seus malabares no balé celeste da roça. O motorista a sua frente estica a mão pra fora do carro. Parece que temos um ganhador:  um sorvete de tangerina durante o sinal fechado. O domingo anuncia chuva em cinzentos blocos dentro do firmamento. Será? Foda-se. Agora nós vamos pra Red City!

sábado, dezembro 08, 2012

JANJÃO E A BOLA DE BASQUETE



Educação Física no ginásio. Lá vamos nós de volta aos anos 90. Prato do dia:  basquetebol.

Era um exercício simples.  Consistia em caminhar em linha reta batendo a bola laranja com apenas UMA das mãos. O aluno deveria ser disciplinado e assim poder melhorar, aprimorar sua “batida de bola”. Missão aparentemente sem segredo:  somente um aquecimento, treino óbvio. Bata a bola até o fundo da quadra e retorne sem muito alarde,  dando vez a outro sujeito e assim sucessivamente. Nada muito problemático. Tudo sem complicações,tudo nos trinques. Apenas um exercício tonto.  Só que um dos figuras ali não parecia afim desse retilíneo percurso. Queria destaque, emoção. Queria acima de tudo livrar-se da simplicidade. Pra que feijão com arroz se existem holofotes?

Foi então que ele entrou em cena, meus amigos. Chegou a vez da fera mostrar serviço. Janjão ganharia a cena. Ele batia  a bola alternando as mãos,  cheio de energia, cheio de gás. Cheio de garra. Será que sabia passar a bola entre as pernas? E o seu gingado era engraçado,  parecia  que o amigo aprendera “uns truques” copiando algum gaiato dono duma técnica de quinta categoria. Basquetebol não se aprende vendo Malhação. Enfim, evidentemente nada daquilo nutria bom gosto ou pelo menos uma polegada de bom senso.

Tanto que essa visão acabou irritando o “treinador”. Sim, a paz sairia de cena naquela tarde. Para o magro Seu Cubilla, de camisa pólo branca e calça preta de tactel, própria para “ginástica” (seu uniforme oficial durante anos) fazer aquilo era inaceitável. Fazer aquilo era detestável, um absurdo: Janjão decidira romper as barreiras do ridículo, acintosamente. Ao topar com aquela porra de visão pela primeira vez, pudemos acompanhar de camarote sua expressão viver verdadeiros momentos de montanha russa.

O olhar mutante passaria de ‘velho acabado porém calmo’ à ‘trapo rabugento extremamente colérico’  numa fração de segundos. O ódio nascente fez com que a cor de sua pele assumisse de vez o vermelho como tom principal. Seu Cubilla enchia-se brutalmente de  sangue, da cabeça aos pés. E derramou tudo isso num grito dilacerante. Foi somente um berro. Um berro de responsa, com aquele eco matador passeando infinitamente pela quadra coberta do colégio.  Até um santa-gertrudense poderia ouvir a frase em tom de desafio. Mas o que gritava Seu Cubilla? Ora, apenas um comando de ordem para o atarantado Janjão. Um grito que fuzilava de vez as pretensões do jovem atleta, naquela tarde de muito esporte na rua sete:

-  HEY! HEY! QUE PORRA É ESSA VASCONCELOS????

E fez o gesto do siricotico com as mãos, numa pantomima do patético. Seu Cubilla era o astro agora, imitando para toda a sexta série passo a passo daquele atleta idiota. Irônico, emulava a cena nos mínimos detalhes, como se o jovem fosse um imbecil com vontade de urinar e de repente se visse impedido pelo simples fato de não saber lidar com uma bola de basquete. E uma vez acabada a exibição, imperou o silêncio total, o silêncio ensurdecedor pela quadra coberta.

Meio sem jeito,  ruborizado, Janjão pára de bater a bola. Volta com ela recolhida nos braços, sob o olhar atento do professor e de toda rapaziada. Parece concentrado para juntar um pouco da dignidade que ainda lhe resta. O semblante é meio perdido, meio pateta. Nós aguardamos sua reação verbal, mesmo sabendo que diante daquele desastroso papelão, restaria muito pouco para o pobre aluno poder exercer uma defesa decente. E então aconteceu: Janjão abre os braços, e num gesto rápido apresenta a todos a solução, com um sorriso meio forçado:

- É balanço, Seu Cubilla...

E o colégio Puríssimo Coração de Maria estourou na gargalhada.


sexta-feira, dezembro 07, 2012

SÃO MUITAS ATRAÇÕES


Carla Perez e Paulo Coelho, dois talentos. Matanza, uma banda de rock genuinamente original e comovente, com um vocalista realmente perigoso - de interpretação, timbre e sotaque incríveis.

Meus amigos, alguém aí acompanha a sólida carreira do menino Felipe Dylon? E os prêmios que o baixista Champignon ganhou durante sua lendária carreira? Acompanhados de envelopes com cheque ou cash, são realmente bastante merecidos, é verdade.

Mas espere: vamos relembrar momentos épicos recentes. Que tal aqueles históricos shows de primeiro de maio - aquelas tardes FM para celebrar o dia do trabalhador? Quem não se lembra destas mágicas recreações com um toque Sônia Abrão? Paulo Ricardo teria nojo delas, mas pra muitos brasileiros aquelas sempre serão inesquecíveis tardes de muita música bonita e beijos roubados. O palco sob o céu cinza e cansado, o esquema todo armado, e entre as muitas atrações, o KLB enquanto headliner do buxixo.


Naquela época a diversão era matar um saco de balas de iogurte em poucos minutos. O que importava era ser imbecil na vida e na escola, inventando com alguma demência palavras bestas pra tentar explicar o sentido da natural  elementar idiotice humana. Naquela época o que importava era diversão em proporções destruidoras, mesmo sem ter em campo míseros trocados. Escassos, nulos,  recursos financeiros em coma, além de qualquer  possibilidade de usufruir de veículos automotivos. Naquela época era impensável ser do tipo que se amarrava em colecionar relógios de pulso (?) ou ser um sujeito tenso correndo pra não perder uma aula 'super puxada' de artes marciais. 

Às vezes apareciam algumas revistas Ações Games no rolê. Às vezes também éramos derrubados por notícias que permaneceriam cravadas na triste baía da memória: como às sete e quinze da manhã daquela triste terça-feira, em que o gorducho Milton gaguejara com o tenebroso anúncio de que poucas horas antes assistira um de nossos colegas de classe ser brutalmente esfaqueado- e aos catorze anos, sem qualquer plausível explicação, o esguio Josias fugia do mundo real.

Final dos anos noventa. Lembro-me com certo pesar deste evento. Uma vez um grande amigo emprestou-me um cd duplo do Judas Priest. Acho que era o Live Meltdown. Ripper Owens nos vocais, aquela coisa de novos ares e tal, e muita gente colocava pra rolar Burn in Hell e deixava ela no repeat; até carrinho de hambúrguer na rua catorze sacudia com esse som. Pois bem: infelizmente devolvi o material depois de uns meses e os discos estavam todos riscados, mas não foi por mal. Eu não sei o que aconteceu, mas foi catastrófico, perda total, com leitura zero para qualquer canhão laser da época. Entretanto, os anos tiveram que passar com este detalhe capenga, e aparentemente nenhuma mágoa restou do episódio.

Enfim: essas notas, meus amigos, fictícias ou não, são escritas enquanto a MGM transmite o Poderoso Chefão.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

QUINTA-FEIRA


Pela manhã, assistimos do meio para o final o filme Hail! Hail! Rock 'n' Roll. Almoço digerido, caminhamos heróicos pela rua três. O centro da velha Rivers daquele jeitão, e talvez por isso distribuímos cotoveladas, enquanto que sob nossas cabeças dois helicópteros dos tiras estavam em ação. E aquele sol bebum de lascar polonês como presente e contexto.

Nós havíamos dado aquele pulo esperto pros lados da praça central, e lá estava o Paulão e sua esposa com novas camisetas em sua simpática barraquinha. Avistamos uma camiseta do KISS bacana: o logo e os quatro feras convivendo num tom meio fogo, meio alaranjado-black. Trata-se de uma estampa nada-brega e muito agradável, era uma camiseta preta do KISS. O problema era o tamanho: M não rola. 


E assim nós caminhamos mais e o calor persistiu como penetra na festa, mas nosso bom humor não seria alterado não. Então foi a vez de conferir pelo lado de fora todo o frisson do Chiquinho Sorvetes, completamente lotado. Era possível curtir de longe a trilha sonora que a sorveteria providenciara aos sedentos por refrescância imediata. Aprumamos os ouvidos para confirmar o tema e sim, era isso mesmo! O Chiquinho tocava o clássico Carruagens de Fogo! Nada mal para a rua 3. E logo ao lado, um novo point recém aberto, ao que tudo indica. De esquina. Trata-se do Pão de Queijo Mineiro. Deve ser esse o nome correto, mas posso estar enganado. Veja só: ar condicionado, tudo branquinho e novinho por dentro. Salgados, líquidos, sorvetes Pagos. Bacana. Mas aqui vai uma dica, rapazes: coloquem um som ambiente no esquema. Talvez por essa ausência sonora a outra ausência não fosse ocasionada: a dos fregueses. Com um silêncio sepulcral, talvez até o mais voraz dos Bradocks enrubescesse ao pedir uma bala chita ou uma dupla de caçulinhas sem gelo. Entretanto, o lugar é aconchegante. O chão é brilhante e de prima você já percebe que a casa abriga umas mesinhas brancas espertas,  estilo Tina e Robson - ferramentas essenciais para receber famílias, solteiros, casais, policiais e até gente da política.  Enfim, meus amigos: assim nossa tarde respirava, numas de buxixada rua três no dezembrão dos loucos. Eu e minha amada seguiríamos em frente, bastante tranquilos, com o céu azul da terrinha inspirando sorrisos e um hot porém generoso sossego.

Ela disse: "eu odeio fazer soluço". Você quer uma cachaça? Não, ela respondeu. Estava preocupada com o horário.

Você conhece o novo salão da Telma? Ela repicou a avenida onze.

quarta-feira, dezembro 05, 2012



Ela é minha gatinha maluca, e eu sou louco por ela. Se  sometimes  a gente se espanca, so fast o amor refaz qualquer indício de desentendimento ou little treta casual. Eterno casório inenarrável da mais-que-perfeita sintonia of the world , vivo em sonho e em sonho vivo, sagrada, límpida e dirty rock and roll mi vida, nuestra life,  eis a una paixão refletida pelos corredores nízescos do meu coração, em todas as manhãs, em todos dias. E sob o céu sossegado de delirantes estrelas fodonas, o destino prevalece.
Amo você, Anita Sandroni.

EVASÃO




A necessidade de evasão. Por aqui, a noite de Rio Claro silenciosa , o repouso é o movimento nas ruas do centro. Ando de bermuda listrada e chinelo, vou escutando Howlin’ Wolf nos fones – aquele discão fodido de 1969. Estou chateadão, estou perdido por aí. Resolvo então pedir um café expresso no Auto Posto Little Bird. Quero revigorar os ânimos. Peço no copo descartável, pra viagem. E embora não tenha abandonado o estabelecimento guiando minha alma pelos ares, a sensação de elevação de alguma forma esteve presente. Esperança, você respira? Sigo caminhando, e me é dada a notícia de que o incansável Wolf está vivo nas avenidas ímpares da velha Rivers, presságio que os ouvidos confirmam. Ainda chateadão em reforçadas doses de mamute, o café  me fornecerá combustível pra lutar. Mas é preferível dormir e despertar somente na próxima década.


DESOLATION TIMES


Esqueça o talento. Esqueça os sonhos. Vocês não tem integridade, ela disse. Esqueça os sonhos. Esqueça a boa vontade. Esqueça que você não é visto como alma mutante. Você é previsível demais. E então admita que você sempre erra em todos os seus impulso de merda. Que você só funciona com elogios. Mas não se permita esquecer por enquanto que uma boa conversa com um objetivo em comum seria possível.

Mas pra que? Esqueça. Esqueça a capacidade de gerir algum bom diálogo, DIÁLOGO. Principalmente o diálogo inteligente, bem arejado, construtivo. Esqueça seu talento. Vocês não tem integridade, ela disse. Esqueça se o indizível prazer da música é importante. Se pra você a música é o sonho vivo, o alimento dos dias, o alimento das noites, isso poderá gerar apenas um desatencioso “ah, sim”. Esqueça que a música e a literatura inspiram sua vida. Enterre todas suas esperanças na rua da lama. Apenas caminhe sem  alegria através da tenebrosa estrada do inútil. Você será sempre o eterno vilão que adora fazer-se de vítima para si mesmo. Eu. Eu. Eu. Apenas esqueça essa tola tentativa de criar algo, esqueça. Esqueça e deixe morrer tudo dentro de você.

terça-feira, dezembro 04, 2012

CHARLES ESTAVA CANSADO




Ele estava cansado. Em quase três horas de apresentação, Charles representara fodidamente no teclado. Era um dos integrantes daquela banda que atacava de clássicos dos anos 70 - reviviam um pouco de Black Sabbath, Rainbow. Ali ele segurava a bronca curtindo uma simpática vibe sem crise, complementando numa boa a sonoridade do conjunto - e meio que tirava uma onda do rolê. "Não sei tocar teclado", era o que repetia em tom irônico, enquanto que aos olhos do público (em sua maioria vestido de preto) no fundo do palco tombava seu ilustre copo americano de conhaque. 



A banda tinha muitos caras metidos à virtuose, essa coisa cansativa da auto-afirmação do ego adolescente e tal. E pra dizer a verdade, no fundo Charles dava era uma banana à todos eles: tocava o seu teclado de modo minimalista e sincero, para sem burburinho dispensar as típicas firulas de índole onanista. Ao invés disso, jogava pro time: podia ser captado realçando os feixes e invisíveis parafusetas das cores principais de cada riff. De óclinhos de grau e marcando o ritmo numa boa com a cabeça, às vezes atacava o teclado meio que sem compromisso, como um anárquico canastrão na noite do rock. E caso se sentisse solitário, poderia trocar um amistoso olhar com o sujeito que estava a sua esquerda : o batera, grande figura, talvez seu único amigo de verdade naquele grupo.


Naquela inesquecível noite de domingo, Charles estava terrivelmente esgotado. Precisava de cigarros soltos e água. Gelada, de preferência. Ao final da apresentação e desmonte do equipamento, queria muito mijar também. Mas a fila do banheiro daquele bar era impossível aos domingos. Assim, aguardou sua vez, com uma paciência baleada e bastante sofredora. Lembrou-se que precisava arrumar sua bike sem falta na segunda-feira, ocasião que resolveu aparecer por ali mesmo, já que já se passava da meia noite na velha Rivers.  Transcorridos dez minutos  , Charles havia mijado na árvore da praça e entrado em contato com a ótima notícia: o cachê da banda, meus amigos, seria um belo sanduíche para cada integrante.




Ela está passando aqui pra me apanhar. São quase três horas da tarde e temos uns documentos, uma ação envolvendo uma papelada aí pra resolver. Sabe aquela terça solícita? Pois é. Em dezembro de 2012 não conheço rush, nem Rush. Afinal, neurose é um troço que não aprecio.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

UM JANTAR NAS RAIAS DA ALEGRIA

Pão francês com ovo frito e tomate fatiado. Matando sem compaixão é o filme na tevê.  Esta noite de segunda-feira em família é quase onírica de tão pacífica, em respeitáveis ondas da real descontração.

BRUNO LÓQUE SAVES

Tony Iommi criou a benção. James Brown iluminou a terra. E Bruno Lóque estralou a chapação.

domingo, dezembro 02, 2012



Mais uma tarde salgada e sensacional. Brasileirão fim de brisa: São Paulo e Corinthians, que não vale absolutamente nada, descontando a indissociável rivalidade. Sou uma pizza de calabresa que ignora o amanhã, especialmente a terrível segunda-feira e todos tentáculos sistemáticos proporcionados aos fãs da carteira assinada. Sou um domingão fuzz espocando artimanhas pra cima daquele dezembrão velho de guerra, muchachos. Mais uma tarde salgada e sensacional, água gelada na alma e café na esquina. E na parte da noite, rock and roll pros nervos.


Não. Três Marchand debaixo do braço não é legal. Quando você arranca a tampa e arrisca dar um cheirada de leve, até que parece que ele é pró. Mas ele é fortão e zuado mesmo. Não rola. Você vai ficar todo cagado de mijo, fi. Mesmo uns experientes lenhadores andaram com bronca. O esquema é passar só um sabonete de leve. Não precisa ser daqueles reforçadão de coco. Tá tão calor ultimamente que a subaquêra predomina. Tomei três banhos hoje e tô grudando, porra.

Tá grudando porra?

Opa. E é por isso que você tá sem mulher, Gilson.

Não. Só tô explicando porque dispenso o desodorante, filho da puta. E você que tá na punheta faz uma cota aí, ladrão.

Pelo menos eu tenho um troco prum Três Marchand.













Três e dezessete da madruga e me sinto de boa, os músculos entorpecidos pisando nas areias mais anestesiantes dos últimos tempos. Quando me sinto assim, bocejar é algo válido.

sábado, dezembro 01, 2012


Dois colchões no chão, lado a lado. Duas almas unificadas, um terno acorde vagando pela lua. Manhã de sábado, eu acordo num mau humor de lascar. Pernilongos, pouco tempo de sono, prováveis causas.

Teremos destinos distintos dentro das próximas horas. Ela terá seus compromissos. Eu não - mas mais que um compromisso, guardo ela no meu coração.

Caminho de volta pra casa. Vejo três pessoas cuspindo na rua 1, na altura da Antiga Estação. Ando mais um pouco, Junior Wells escuto com o sol, e de chinelão e bermuda listrada os parágrafos do sábadão naturalmente fluem. Pego a avenida sete, compro o livro do amigo Geraldo J. Costa Jr na livraria do Mário, meu xará.

Depois, a padaria Veneza. Nem preciso pedir: no balcão, o café. Sem açúcar, é claro. Volto pra casa, almoço com minha velha mãe e uma de minhas irmãs. Assisto um pouco da Espn Brasil, aparentemente desinteressado.

Em seguida, mais café. Com as festividades de final de ano próximas, ajudo o pessoal aqui - mesmo sendo um sujeito folgado e preguiçoso, sei fazer força e ajudar as pessoas de vez em quando.


Acontece que ainda não são três da tarde - e enquanto tento ler escutando Muddy Waters e Howlin' Wolf , a saudade me invade, Anita Sandroni.



O São Paulo prestes a disputar mais uma final internacional



O São Paulo prestes a disputar mais uma final internacional. O desejo de invadir o Morumbi. Meu velho pai, grisalho e feliz, narrando as memoráveis viagens pós títulos, imortais episódios dentro do caminho de volta pra casa, memórias que marcariam pra sempre os anos noventa.




Os amigos conversando animadamente em detalhes e versos tricolores - eis ressurgida a força e o poder de destruição do ataque, dos meias, zagueiros, laterais, volantes, e o camisa um nunca será esquecido. Sem pressa, os rojões constroem o verbo. Mais um caneco pra zoar os pobres rivais. Sem perceber, retornamos aos anos noventa. Lá estavam as merecidas pausas da viagem, pra rangar, pra beber alguma coisa na louca madrugada dos campeões. E haveriam mais piadas rápidas, sonhos reais e invencíveis, sonoras comemorações debaixo do céu de glórias e eternas conquistas. 


A euforia ainda ruge, a euforia não descansa. E permaneço com eles, entre a pista do retorno e as esquinas da velha Rivers. O encantamento, o largo sorriso, os amigos satisfeitos bradando gritos de guerra, as lendas do Morumbi, os craques do passado. O São Paulo prestes a disputar mais uma final internacional.

pode apostar, Lindomar

confuso, vagabundo, folgado. louco por futebol e rock and roll, aquele flamejante, conhece? incendiário, de libertação. louco por liter...