sábado, dezembro 08, 2012

JANJÃO E A BOLA DE BASQUETE



Educação Física no ginásio. Lá vamos nós de volta aos anos 90. Prato do dia:  basquetebol.

Era um exercício simples.  Consistia em caminhar em linha reta batendo a bola laranja com apenas UMA das mãos. O aluno deveria ser disciplinado e assim poder melhorar, aprimorar sua “batida de bola”. Missão aparentemente sem segredo:  somente um aquecimento, treino óbvio. Bata a bola até o fundo da quadra e retorne sem muito alarde,  dando vez a outro sujeito e assim sucessivamente. Nada muito problemático. Tudo sem complicações,tudo nos trinques. Apenas um exercício tonto.  Só que um dos figuras ali não parecia afim desse retilíneo percurso. Queria destaque, emoção. Queria acima de tudo livrar-se da simplicidade. Pra que feijão com arroz se existem holofotes?

Foi então que ele entrou em cena, meus amigos. Chegou a vez da fera mostrar serviço. Janjão ganharia a cena. Ele batia  a bola alternando as mãos,  cheio de energia, cheio de gás. Cheio de garra. Será que sabia passar a bola entre as pernas? E o seu gingado era engraçado,  parecia  que o amigo aprendera “uns truques” copiando algum gaiato dono duma técnica de quinta categoria. Basquetebol não se aprende vendo Malhação. Enfim, evidentemente nada daquilo nutria bom gosto ou pelo menos uma polegada de bom senso.

Tanto que essa visão acabou irritando o “treinador”. Sim, a paz sairia de cena naquela tarde. Para o magro Seu Cubilla, de camisa pólo branca e calça preta de tactel, própria para “ginástica” (seu uniforme oficial durante anos) fazer aquilo era inaceitável. Fazer aquilo era detestável, um absurdo: Janjão decidira romper as barreiras do ridículo, acintosamente. Ao topar com aquela porra de visão pela primeira vez, pudemos acompanhar de camarote sua expressão viver verdadeiros momentos de montanha russa.

O olhar mutante passaria de ‘velho acabado porém calmo’ à ‘trapo rabugento extremamente colérico’  numa fração de segundos. O ódio nascente fez com que a cor de sua pele assumisse de vez o vermelho como tom principal. Seu Cubilla enchia-se brutalmente de  sangue, da cabeça aos pés. E derramou tudo isso num grito dilacerante. Foi somente um berro. Um berro de responsa, com aquele eco matador passeando infinitamente pela quadra coberta do colégio.  Até um santa-gertrudense poderia ouvir a frase em tom de desafio. Mas o que gritava Seu Cubilla? Ora, apenas um comando de ordem para o atarantado Janjão. Um grito que fuzilava de vez as pretensões do jovem atleta, naquela tarde de muito esporte na rua sete:

-  HEY! HEY! QUE PORRA É ESSA VASCONCELOS????

E fez o gesto do siricotico com as mãos, numa pantomima do patético. Seu Cubilla era o astro agora, imitando para toda a sexta série passo a passo daquele atleta idiota. Irônico, emulava a cena nos mínimos detalhes, como se o jovem fosse um imbecil com vontade de urinar e de repente se visse impedido pelo simples fato de não saber lidar com uma bola de basquete. E uma vez acabada a exibição, imperou o silêncio total, o silêncio ensurdecedor pela quadra coberta.

Meio sem jeito,  ruborizado, Janjão pára de bater a bola. Volta com ela recolhida nos braços, sob o olhar atento do professor e de toda rapaziada. Parece concentrado para juntar um pouco da dignidade que ainda lhe resta. O semblante é meio perdido, meio pateta. Nós aguardamos sua reação verbal, mesmo sabendo que diante daquele desastroso papelão, restaria muito pouco para o pobre aluno poder exercer uma defesa decente. E então aconteceu: Janjão abre os braços, e num gesto rápido apresenta a todos a solução, com um sorriso meio forçado:

- É balanço, Seu Cubilla...

E o colégio Puríssimo Coração de Maria estourou na gargalhada.


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