sexta-feira, dezembro 21, 2012

ERIBERTO



Lá de cima do telhado, ele ameaçava o mergulho. A mulher aos prantos. O filho, que de tamanho batia-lhe na altura da cintura, purificava seus demônios em asas da paura. erguia-se aos berros, alma perdida em legiões de gritos em ecos tingidos de medo mirim. O condomínio era longe de tudo, e eles não tinham vizinhos. Uma chácara afastada do mundo. E na ponta do telhado, o Eriberto. Sua expressão era de homem distante. O sorriso perturbado-prazeroso desenhando-lhe no rosto de menino envelhecido a boba afeição pela pronta fraqueza, a estupidez locomovendo um coração de papelão.

No lento balanço daquele corpo gordo e banhudo, Eriberto assustava, tornava a anunciar o golpe, ameaçando a queda, o olhar cego para o alto, para baixo, aleatório. Ele tomba um pouco mais pra frente o peso do próprio corpo. Está perto de cair. Então recua. Para o filho e a triste mulher, o replay da sinfonia daquele suplício. E o teatro recomeçaria. Pra frente, pra trás: a impotência da esposa garantia o espetáculo. Não havia como recorrer a alguém, pedir ajuda, auxílio, nada. Teresinha também temia que o filho herdasse a composição medrosa do pai, e assim legasse seu lema, o desperdício de um covarde como bíblia de bolso. E o Eriberto continuava balançando em cima do telhado, sem camisa.

No rosto da esposa, lágrimas de ódio. Lágrimas fininhas. Danificavam-lhe a maquiagem tão barata, mas era a mão direita que pulsava o amor pelo Carlinhos. O filho de quatro anos de idade, louco por pipas e pássaros, grudado a ela, gritando inutilmente. Gritando a cabeça vermelha de sangue quente, garganta raspando pus nos amplificados ruídos surdos, em vão.

Eriberto era um flácido quarentão. Mais um barrigudo acomodado sem rumo, um grande loser. Era mole e devagar. Desmerecido no trabalho. Sem amigos. Um ex-farinheiro que adorava descumprir promessas de manter-se sóbrio. Que adorava desandar em menos de quinze dias de sobriedade. Que de abstêmio voava para a rápida mutação: era hora de protagonizar showzinhos como este. Não era homem de se matar, não. Mas seu Mizuno direito patinou numa telha irregular e o gordo despencou com tudo pro chão, o Eriberto está eunuco e tetraplégico.



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