quarta-feira, dezembro 19, 2012

O HOMEM MISTERIOSO




O pequeno sujeito está num canto da sala. Leva mais um cigarro à boca, tragando sem a menor pressa. É noite de natal na velha Rivers. Os amigos estão reunidos na casa de Jeff Sono.

E entre eles, o pequeno sujeito. Que some do nada. Que aparece também do nada. Que ronda espaços vazios, espaços humanos. Que causa súbitas interrupções no andamento, no fluxo natural de qualquer ambiente da casa. Dentro da casa de Jeff Sono, a noite guarda alguém que abruptamente silencia o bate papo dos amigos. Seria um vulto? "Não, não é ninguém, continua". A conversa retorna, mas um pouco atordoado um dos oradores já esquecera o assunto, a última frase. Até que alguém avista o vulto. Perto da cortina da sala? Quem sabe? Não, ali, perto da porta. Sim. Olha ele ali. De pé, impassível.  A desviar facilmente os olhares dos presentes. Você acompanha a  cabeça da negada apelando prum violento zoom da curiosidade – e o resultado é o homem misterioso e o seu cigarro, à espreita, quase que escondido em plena noite de natal. Parados, os dois: ele e o cigarro aceso. Calados. E de pé, no canto da sala,  proposta que continuará sendo a tônica da noite. Randômico e onipresente pelos cantos da casa de Jeff Sono, em mais uma noite de natal na velha Rivers, reluz o pequeno sujeito e seu cigarros sem fim.

Oculto friend. Eterno invasor em teletransporte de cômodo caseiro. Elemento surpresa de natal, vagando como aquele velho visitante de recintos mil nas ondas da sutileza. O pequeno sujeito de olhos azuis que profere poucas palavras, dando a entender que sua máquina cerebral é superior ao primário mecanismo da fala. Principalmente aquela destinada a comunicar coisas óbvias e completamente desnecessárias, quase sempre dentro dum contexto mais imbecil ainda.

De modo que os amigos haviam organizado a festa de natal na casa de Jeff Sono. E para entrar num clima de zuera, o manequim obrigatório sugerido anteriormente reverenciara um tema em especial: a LAMBADA.

E lá estava o homem misterioso também fantasiado. Como se aparecesse na função lusco-fusco, metade humano metade fantasma (levando-se em conta que a iluminação era branda propositadamente em alguns ambientes da casa). É possível afirmar que uns dois ou três convivas certificavam-se de sua presença através  da garantida observação do fluxo de  fumaça nas extremidades dos cômodos. Sem dúvida, afinal não era raro vê-lo puxar um cigarrinho atrás do outro. Acendia-os, porém, na base da serenidade. E enquanto isso a lambada comia solta. Alguns acabavam suas  bebidas e com alegria reanimavam seus copos, conclamando aos poucos sóbrios  o caminho da zuera coletiva. Sei lá o que isso significava, mas era engraçado ver Irene  (que não havia sido convidado a princípio) dar inúmeras cambalhotas pelo estreito corredor que ligava a sala até a cozinha. 

O fato é que paralelo a isso, outros convivas entravam no banheiro de fininho, com uma tremenda vontade de peidar reservadamente – apenas para evitar passar um carão na frente dos amigos mais sérios e conservadores. O que pensava o anfitrião disso? "De boa, só não caga no chão."

Em dado momento da noite, encaminharam-se todos para a cozinha. A cena: uma aconchegante mesa retangular ao centro. De mármore, é claro. Ao norte a pia, fazendo dupla com o fogão. E falando em pia, um psicodélico bebedouro de barro em  cima desta majestosa era um dos pontos fortes do local. Bom, mas e o sul da cozinha? Ao sul morava o armário branco. Lar de pratos e ferramentas como garfo e faca, copos, guardanapos e mágicas vasilhas plásticas. Tudo isso com muita música. Para os ouvidos, Kaoma. De sapatos negros e traje social, o não-fantasiado Laércio suíngava pra valer, era lambada no corpo e na alma dando o tom da perpétua descontração groove groove, cortesia daquelas calientes ondas sonoras voando através do aparelho de som lá na sala de visitas,  instalado no outro extremo da casa do grande Jeff Sono.

Voltemos. Dentro da cozinha, éramos em trinta pessoas. A festa já estava no segundo tempo. Lembro-me da fauna. Muitos dos convidados estavam trajando roupas poucos usuais, espalhafatosas, coloridaças, sem abrir mão nem pés de acessórios que marcaram a época do ritmo proibido. Verdadeiros frutos renegados dentro dos dias de hoje, típicos restos de brechós natimortos. “O Natal é uma merda, não tô nem aí”. “É o espírito tosco natalino sem maldade”. “Acabou a cachaça?”. Diversas substâncias ilícitas também eram distribuídas pelo palco, até que o “fornecedor” gentilmente seria expulso com vários pontapés no ass. Uma pena, ironizou Sono, impaciente e faminto. Era essa a cozinha. Alguns de pé, outros no chão, alguns descansando o bumbum nas cadeiras em volta da mesa. Bebaço, Laércio agora arranhava um Michel Teló numa levada Maiden junto ao violão, em remix com a lambada de fundo. 

E então aconteceu.

Um incrível exército de salsichas resolveu dar as caras. Jovenzinhas viriam ao mundo graças ao seu panelão-paizão, podíamos antever os futuros cachorros quentes de natal. O molho era o oceano naquele paraíso sob o fogão. Todos comeriam calados, sendo que alguns morderam muitos dedos durante a operação. Pois éramos vorazes, impiedosos, derrubando versos de extrato de tomate dentro da orelha, inclusive.

Mas ali, não havia ninguém que, sem ao menos perceber, não recebera de assalto uma visita visual, inusitada de alguém muito secreto. Sim. Aquelas almas recebiam de quando em quando os olhares daquele pequeno sujeito calado, taciturno, de olhos azuis. Ora perto do fogão, ora perto da porta que dava para o quintal, lá estava ele, encostado contra a parede, o cigarro na mão.

Esqueçam os sonâmbulos, as aparições de santos ou santas em cidades distantes. Naquela saudosa noite de natal no lar do grande  Jeff Sono, quem roubou a cena não foi o cachorro quente ou a lambada nos mágicos passos do ágil Laércio. Não. Muitos anos se passarão e aquele pequeno sujeito ainda estará aparecendo de repente, nas retinas e durante a soneca dos mais estóicos aos mais fanfarrões do espírito. Porque para alguns ele ainda é sempre será conhecido como o homem misterioso.

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