quinta-feira, fevereiro 28, 2013

O TRATO COM BILU

O trato com Bilu. O trato com Bilu era um livro de poemas que nascera morto. Montanhas de cocô logo no primeiro movimento. A surda-muda irmã de Tiqui estuprada era o título da terceira poesia. A quarta: como morrer de gonorréia em plena segunda-feira. 

Você estava no quinto poema, então. O úmido cabelo do ânus de Guilherme. Para escrever o livro na cadeia, houve muito derramamento de sangue. Muito sangue, uma lata de 
na orelha de Cassius. Com um esforço enorme, engolindo as próprias fezes e as de seu companheiro, Bilu pariu "Sem tirar o sobretudo". Vendeu alguns cigarros e teve lucro na cadeia. Fora estuprado e morto várias vezes. Uma confeitaria gelada com um freezer com gargalhadas pairando em sua cabeça. Uma mão macia subiu pela coxa peluda do Bilu. Era Nice. Era Nice, um travesti inteligente. Bilu a beijou, bigode com bigode, Nice era um leão que torcia para o corinthians. Alfredo, o negro Alfredo os observa silenciosamente, do outro lado da cela, com a mão no peru. 

- Posso brincarrrr?

Ele tinha esse defeito na fala. Esticava os R's sem perceber. Ele diz que não, diz que não ouve a própria voz. Não era descuido, dizia. Era o tipo de sujeito disposto a discutir com um palito de fósforo que não lhe pertencia, contar quantas testas encontrara no jogo dos Lakers. Então Eunice a carcereira entrou na sala. Aproximou-se sem dar muita guéla, jogou spray de pimenta dentro dos olhos de Bilu e Nice. Os dois caíram depois, porque ela aplicou-lhes uma tremenda descarga. Bum. Um puta dum choque meu, que derrubou Alfredo também, que despediu-se dali. Enterram-no ouvindo Kansas, Dust in the wind, e depois a cadeia toda sumiu, alvo de um ataque nuclear. Dentro do avião, indo para Zurique, Henrique achou o livro dentro do toalete. Ele  abre a tampa. Quando escorrega, vai fundo e acontece o rolê: Henrique colocou a cabeça na privada e bebeu pelo nariz bastante xixi, e o livro estava no lixinho, Henrique sorriu brenfado e saiu do banheiro de braguilha aberta. Posso brincarrrr? Voltou ao seu lugar e olhou fixamente para seu noivo Alfredo. 

De mãozinhas dadas, pensaram em travessuras no hotel cinco estrelas.



O interior. Legados de provincianismo chinfrim inundando a retina. O discurso manjado das famílias ricas, famílias pobres. Glamour de infatilóides no cio.

Cartazes mal feitos, cartazes mais preguiçosos. Mais preguiçosos só não mais que a própria burrice. O verbo é um a ação é outra. Normal.
Ah sim: cartazes bonitos também. "Olha, nem parece que eu moro nessa porra de país". 

E a estupidez musical em alto nível. As bandas cover de final mal sucedido de adolescência, uma ameaça ao bom senso. Os imitadores de quinta categoria jogando um charme, jogando dominó com os plagiadores de primeira. Aplaudir simuladores de guitarras e cantar o hino nacional; a turma dos espertos "representando" em duas categorias: a quinta série completa ou quinta série incompleta. E assim caminha o Lulu Santos do pandeiro cruzando a fronteira em seu death metal macarrão, olá, o cérebro, a escola, a hipocrisia é comovente, eu sei, Lulu, Lulu, rádio patrulha, rádio patrulha, permissão para palestrar, o interior é bonito.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

VIDA LONGA AO MESTRE MIKE NESS

Há compositores, letristas. Há arranjadores. Também existem os esporádicos hit makers de mercado, os meros plagiadores, os copistas de quinta. Mas, para além deles, respira um homem que esculpe obras primas que falam direto ao coração: na terra, existe um homem chamado Mike Ness.





It was a moonlight mishap
You lost your party hat
Seems your lifestyle ain't so worthwhile after all
A heavy-hearted taxi ride
Then a walk on the wild side
Did your guardian angel let you down?
Gonna lay low and play it straight
It's time to rejuvenate
Gonna kick start your heart until you come around

I can tell you now; you've really gotten the blues
I can tell you now; that I've walked in your shoes
Gimme the sweet and lowdow
n

COMPLICADO, JÚNIOR



Duas crianças foram horrivelmente assassinadas por um enorme pão francês. O veículo massa, municiado de farinha na ignição, atropelou na contra mão Bilu e Jico, dois garotos sem juízo brincando de pipa em linhas cortantes. Seus restos mortais foram digeridos por um parasita que roubara a cena perto do semáforo minutos antes, enquanto defecava na frente de uma loja de Tintas. Bilu e Jico não conheceram a oportunidade de acompanhar Enorme Pão Francês alimentar e empreender sua rápida fuga, foram sérios farelos em disparada, as calçadas assustadas. E o pequeno Bilu e o little Jico caíram duros. O fato é que suas vísceras logo foram parar na boca e na mastigação irregular de um mendigo de cueca por cima do bege moletom. É, daqueles homens sem rg que há muito tempo não zumbizavam  pela planície de Rivers. Sua antiga casa? A Avenida Visconde de Sid Rivers, e seu cheiro de suco de laranja desenvolvido por cadáveres. 

E agora uma terceira criança desapareceu. E uma quarta também. Altônio, de oito anos, e Mike Milde, de sete, foram vítimas das paixões de um confronto de X-BOX 360. Fora um combate monstro em forma de gente grande, e naquele calor de embate de quartas-de-final do Fifa 2013 com direito a expulsão do Messi, os dois acabaram saindo no xingo, no mini-soco, na bicuda de leve, no tapa sem direção e no puxãozinho de cabelo. E então foram pras ruas decidir a parada. 


Morreram afogados na comporta do Horto Florestal. Foi negligência? Sei lá. Nenhum deles conhecerá a felicidade da adolescência. Muitos menos as insatisfações da idade adulta. Muitas vezes a namorada de um homem afirma-lhe: você não toma banho antes de nossos encontros. Contudo, isso pode ser um mero embuste, é o que diz um namorado cheio de CC. "Um ardil feminino carregado de hormônios selvagens, tipo doença de chagas abaixo da linha do Equador". 

Mas enfim: os jornais da roça atentam para os pais enlutados em Rio Claro. Papis e Mamis que jamais conhecerão os netos que teriam acarinhado no Boulevard com muito doce de leite na mamadeira, Nike e tecnologia. Por isso, as aulas no Colégio Burríssimo Jones estão suspensas. Luto, negão. É muito caixão e bad trip pro pessoal da oração em pró do abc Paulo Meire assimilar. Ainda mais agora, no meio de tantos boletos e dívidas, grampos. Complicado, Júnior.


sábado, fevereiro 23, 2013

VELO CLUBE X SANTACRUZENSE




Logo mais, estarei como comentarista convidado na Web Rádio Esporte Total. O jogo é Velo Clube X Santacruzense. E o Velão precisa desesperadamente da vitória dentro do Benitão.


Você pode acessar o pré-jogo pouco depois das 17 horas, através da página da rádio:

http://www.facebook.com/pages/Web-Rádio-Esporte-Total/487025058010394?fref=ts



Paulinho Kobayashi é o técnico do Santacruzense.

LITERATURA É ROCK AND ROLL




Literatura é rock and roll. Rock and roll, um planeta literário sujo, com cacetadas de humor, sexo, violência e diversão garageira. Entre válvulas e páginas, Dostoiévski encontra James Cain, Johnny Thunders cruza com Kafka na Avenida 8. Em devaneios fuzz, Gogol e Freddie Mercury estouram numa gargalhada kubriquiana lá pros lados da Avenida 29. 



Entre parágrafos de sonho, advérbios cirúrgicos  e densidade psicológica desoladora, Simenon e David Goodis cumprimentam Mike Ness, e o eco dos deuses do Sonic Youth invade o Horto, enquanto Kerouac e Tom Waits pedem um café na Veneza, esperando o Mavericão do Neil Young dar as caras pela Rua Cinco.



Agora, as velhas crônicas do Nelsão vão descansando ao lado do guerreiro London Calling, vinilzão que anima o churrascão Stooges dos eternos camaradas, o buxixo sangrento, ou a madrugada solitária balzaquiana. E entre uma lendária ofensa cheia de veneno ggalliânus, entre uma microfonia comendo lanche no Big Bar tendo como background aquela saturação inesquecível, nas cordas de uma Les Paul reluzindo sangue o velho Black Flag encontra o 'escolado' Plínio Marcos, no domingão-calorzão do Lago Azul. E comendo um nervoso pão com mortadela, sábadão na praça, tomando sua Galeguinho gelada, um eterno adolescente boca suja e de tatuagens baratas nos fones escuta Ramones, pela longa madrugada da velha e sonhadora Rivers. 
























E o santo protetor do Carnaval? São Bódromo.

O MELHOR TIME DO MUNDO NÃO DESCANSA: BAYERN HUMILHA WERDER BREMEN.



Mais um massacre do melhor time do mundo. Bayern 6 x 1 no Werder Bremen. E com golaço de Ribéry e tudo mais, para deleite dos setenta e um mil presentes na Allianz Arena. 

Enquanto os incapazes vão sugando bola do Barcelona, o time alemão vai massacrando um a um, sem piedade. Hoje novamente  irrompeu ofensivo de verdade em campo. Com punch extra agressivo, lançando-se ao ataque objetivamente 'PRA FRENTE', dominando e matando, pisaram sem dó na cabeça de mais um de seus sacos de pancada. E nada daquele papinho de "posse de bola", de só de ser dono de posse de bole e todo aquele tico-tico. Todos nós sabemos que até uma vózinha também pode passear com seu chiuaua e ter muita posse de bola.

A verdade é que  é muito fácil o torcedor ver o Bayer jogar e chapar pra valer. É muito fácil curtir vê-los atropelar os adversários, um a um, assim como destruíram o Arsenal nesta semana, em Londres. E na Bundesliga, o Bayern pode ser campeão com cinco rodadas de antecedência. O melhor time do mundo hoje é o Bayern.

Agora deixo a vocês as palavras do 'scarface' Ribéry:

"Acho que agora temos o melhor Bayern desde que eu cheguei à equipe.O Barcelona é um time diferente, com outro elenco, outra filosofia e outra organização. Mas nós não estamos abaixo, e sinceramente não me importaria que nos encontrássemos já nas quartas".


quarta-feira, fevereiro 20, 2013

O CHURRAS DA GALERA


O churrasco havia terminado para a maioria. Tinha sido excelente - também pudera, um churras na casa do Mestre Zanzibar já começa quente. E pela mesa comprida no quintal muitas bebidas, de cachaça sem rótulo ao run de Lex, de cerveja gringa à Galeguinho. Todos líquidos fazendo a alegria da galera. O churrasquer era o Laércio. Que distribuía carne mal-passada e bem passada, tostada rapidex na brasa ou numa levada mais arrastadona também. Quem puxava a trilha sonora era o Mestre Barquinhos. E sim, claro não podemos esquecer do vinagrete de Jennifer e os patês mágicos da lírica Caneva Silence, que pela farta mesa também reluziam, armanezados ou em potes de plástico ou em  pequenos pratinhos. 

Começara às duas da tarde, a bagaça. Agora eram oito e meia, e o Laércio já estava beldão. Acompanhando a piração do crepúsculo, Jeff Sono tinha os olhos meio místicos, cheios de sono e leseira malandra. Geralmente, nessa hora começam a rolar aquela série de trapalhadas inesquecíveis. Contudo, ali não havia um perigo eminente. Lex puxou o carro, e o resto da galera também. A jovem Marieta apenas havia torrado parcialmente as sobrancelhas ao tentar reacender o fogo na base do soprão monstro à queima roupa. "Ideia de jerico" disse Caneva Silence. Mas perfeitamente plausível, o esforço. Vocês sabem: a pessoa chega ali como quem não quer nada, examina o carvão, e coloca a fuça bem perto do fogo mandando ver no motor de arranque pulmões. 

Assim, entre punzinhos, tragadas e piadas internas maliciosas,muitos foram vazando, o que era natural, é claro e os reunidos eram apenas cinco agora: o anfitrião Zanzibar, o prestigiado bêbado Laércio, Tablitas Chips e Jeff Sono, um casal divertido e brenfado e ela, a louca, Jennifer.  A delegada que dedicara-se a beber intensamente sua Pitú. Antes que o porre chegasse, ela era outra pessoa na casa de Zanzibar: conversava atenciosamente com todos, dispensando ótimo tratamento e simpatia. Sabia ouvir, sabia falar. No entanto, alguém ali pressentira que haveria um problema com o abuso de bebida. O problema apareceria sim, no porre louco da delegada Jennifer, mas o homem que havia pressentido tudo aquilo também estava bastante alcoolizado: falo aqui do advogado Laércio.

Ao invés de sugerir cautela, o anfitrião lascou no talo o volume do rádio. Era Iron Maiden a dar com pau no esquema. "Se foda pessoal, vamos curtir". Tablitas Chips e Jeff Sono naquela altura da noite capotaram no chão mesmo, usando a caminha dos cachorros como agradável travesseiro. E o casal sonhou algo bastante lúcido, em chroma key mesmo: o casal sonhava junto. Uma hora eram egípicos apaixonados fugindo dos tiras locais, outra hora eram uma dupla do barulho arrebentando numa session afrobeat rock and roll com instrumentos vintage. E no mundo real reagia neste momente sobre eles a soneca. Para os outros três algo terrível estava prestes a acontecer. Jennifer sem querer gorfou no rosto do advogado. Mestre Zanzibar ficou preocupado. "Vou ter que limpar o chão, que merda". E o Laércio? 

Bem, quando começou a entender que seu rosto fora alvo fácil de Pitú regurgitus, uma mera face para o pouso amortecido daquele gorfo, Laércio ficou uma fera. Encarou a autora dos disparos. Ameaçou inclusive atacar a delegada à vassouradas. Nessa altura, Mestre Zanzibar já dormia também, ouvindo Infinite Dreams. Dormia de óclinhos e sorrisinho estampado, o pote colado à caixa de som, as pernas maneiras numa bermuda de pescador bem esticadas e relaxadas.  Então de súbito Laércio jogou água no rosto e aparentemente esqueceu o episódio. Procurou encarar a cena como uma provocação caliente. Jennifer pedira desculpas e praticava a tática do halls preto agora. Laércio era um rapaz de sorte e, para seu deleite, beijou a delegada na boca.  Atrás deles, alguns corações de frango sorriam, no ponto, prontinhos na grelha do rock. 

E advogado e delegada em ação. Os dois no maior bole que bole, e os outros roncando, felizes. Cada um na sua pira. Era o churras da galera. O relógio não tinha menor participação naquele rolê. No final do churrasco o relógio não fora convidado: e às dez da noite outro prolongado beijo perto da mesa comprida irrompia, ao som da donzela de ferro. O quinteto e o grupo inglês chacoalhavam pra valer naquele vivo pedaço de viva poesia na velha Rivers.

GERNICO NA LINHA

Não confio em ninguém. Não confio em ninguém, era o Gernico quem repetia sempre essa porra de frase. Não confio em ninguém. Não confio em ninguém. Se estava brigado com a mulher, guardava a bronca sozinho, no maior silêncio da galáxia. Nada de sair soltando o verbo com os amigos. Por mais reservado e responsa que o ouvido alheio fosse, a contingência da serpente entraria em ação, igual a novela das seis. A serpente daria as caras, e o boné de crocodilo em verso e prosa traria à tona o fraco do ser humano. "Gracejos né?" "Gracejos entre colegas". E então ele puxava um punhado de catarro, puxava uma cana massa, o dono da rinite e do mau humor espontâneo em doses brutais. Era um rabugento com todos, o Gernico, era o que ele achava que deveria pensar a pobre mãe, em idade avançada e agora liquidada, com paralisia cerebral. 

Numa fuleira tarde de quarta-feira Genico está sozinho em casa. Sai do banho contrariado. É que o telefone tocou.

- Alô!

Gernico respira com força e fundão, respira bem forte.

- Com QUEM você quer falar, amigão?

Gernico muda de cor. Cores quentes surgem na fronte larga, e o telefone é segurado com ódio crescente. Sua mão aberta em ação sufocaria o pescoço da Fátima Bernardes sem pestanejar.

- Ah, vá se foder, gente boa. Escuta aqui, marmitão de encomenda: vá induzir sua mãe a dar o rabo com xampú! Numa boa. Aliás, é mais fácil eu convencer você a largar isso que você chama de ocupação do que você me vender alguma bosta. (...) Isso. Vá dar chilique lá na casa do caralho.

Gernico desliga. O telefone é batido no gancho com fúria, o telefone vai precisar duma potente sessão de Cataflan. Estamos em plena maravilhosa tarde de quarta, e a velha toalha do Santos está molhada, cobrindo Gernico da cintura pra baixo. Do outro lado da linha, sobra um rapaz fardado de imbecil. Com a pele feita de acne e repleta de espinhas, faz beicinho. Vira pra "amiga" de óculos e também fardada de imbecil, ao seu lado. Está muito bravo: "óin, que filhu da puta..."

terça-feira, fevereiro 19, 2013

CAVALINHO DOIDO

Bruscamente, Tony Cocô se inclinou. É que acabara de levantar-se do sofá. Ele recolheu seu revólver. Mas depois mudou de opinião. Mirando bem no meio da testa da empregada, começou a disparar. Mas apenas fez oito disparos. A empregada agora jazia em escarlate, dispersa em miolos. Tinha os últimos dentes e gengivas como o auge de uma groselha borbulhante, o quadro era um vívido mar de desgraça meio Milani, sem dúvida. E sim, alguns outros miolos tingiam o sofá, inclusive até na peruca do Tony havia algo de intrigante. E pensar que tudo isso fora armado por causa daquele precioso Le Cheval.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

A vovó tinha a teta caída na altura do umbigo. Fumava dois cigarros ao mesmo tempo, quando o domingo chuvoso rasgava pela noite cinza. Olhe para suas canelinhas: finas e peludas. Essa mulher tem noventa cinco anos e há pelo menos três não sabe o que é banho. Contudo, abaixa-se, limpa o ânus com certa leveza.

A vovó acorda cinco da matina. E nada de alongamentos no cardápio - daqui em diante ela fuma os cigarros, ela vomita. E entra na banheira. Quentinha, a banheira? Não. Vazia. Ela toma seu banho invisível durante três horas e alguns pálidos minutos em azulejos beges. O ritual só é encerrado após a revista Cláudia edição de número 167 ser lida de cabo a rabo por três vezes seguidas. Então a vovó não se enxuga. Reumática, rema pela cozinha. Prepara uma refeição qualquer - o dono da venda da esquina é seu amigo e em tempos de amargura ela paga-lhe um boquete. Em seguida, vovó dorme. E no dia seguinte, a mesma coisa.



E A ESPOSA NÃO SABE


Impressionado, Euler ficou de pau duro. Depois retirou-o da ceroula e meteu-lhe no brioco do Odair, um evangélico cinquentão do dente amarelo.




olha o Euler aí

domingo, fevereiro 17, 2013

SOMETIMES

Às vezes, alguém cai duro no chão da cozinha. O gordo Roney preparava sua omelete e pum: morreu.

Shirlei, ao ver o defunto, esbugalhou os olhos e abriu o grito sangrento: AHHHHHHHH!!!!

O marido nu e pançudo bem na sua frente, com a careca ao lado da vasilha de rango do Pitico.

E entre lágrimas e ranhos, ela papou a omelete todinha.
O Rio Claro não tem torcida. Não tem paixão. Rio Claro sempre foi um time sem brio, neutro. Uma camisa sem estrela, sem glórias. Enfim, um nome que opaco vive, sem relevo no coração do morador da velha Rivers. O Velo não. O Velão sempre foi o oposto: aqui é Velo, porra. O nosso Velão sempre foi a voz do povo, a voz do sangue, a paixão acima de tudo, a raça, a gana, a vontade implacável de vencer provocando milagres. No último sábado, houve uma desilusão geral. Não devemos culpar juiz, Éder Luis - não devemos culpar Tiago Bernardi, este ou aquele jogador que perdeu gol ou não sabe sequer o que é uma bola. Devemos culpar o planejamento. A falta de profissionalismo. Futebol não se faz com meia dúzia de desmandos. O Velo Clube é maior que isso. Muito maior que isso.


sexta-feira, fevereiro 08, 2013

GARRAFA VAZIA E INTERCEPTOR EM SÃO PEDRO!


AEROSMITH É UMA PUTA BANDA....


Desde aquela noite quente , quando acasalaram no sofá do Jacenir, e mais tarde no chuveiro, Evandro Luís não conseguia parar de pensar em sua paixão nem por um segundo.

E, no entanto, não tinha notícias de Renato desde que se despediram, quando ele o deixou de bike na porta do Shopping. Nenhum recado no Face, nenhuma mensagem, nenhum alô, nada, nada. Nada.

Evandro Luís dizia a si mesmo "pô, o cara deve tá maior ocupadão e tal". "Tá corrido pra todo mundo...é....é....o lance é eu me ocupar com alguma coisa.". E cabisbaixo, começou a varrer a sala do Jacenir. Dividiam a casa há três anos. O Jacenir estava de férias, descansava em Búzios agora. E o Evandro Luís carregando a vassoura, ela própria magoada, recusando-se a varrer com energia. A vivacidade por ali era zero. "Puta falta de consideração do maluco, tá louco". Largou a vassoura e foi jogar um Playstation. Isso. Evandro Luís não demonstrava alívio. E quando o game over finalmente chegou, a frustração deu uma bela duma engordada dentro do peito. "Quem ele pensa que é pra me tratar desse jeito?". Então entrou no Twitter. "Tá chato". Saiu do Twitter. Tentou tomar banho. Ligou o rádio. Tomou a ducha ouvindo Aerosmith. Respirou fundo, inalando o perfume de sândalo de seu sabonete. Já não sentia mais aquele combo, aquela sequência de arrepios percorrer sua espinha. Desligou o chuveiro, bem desanimado. Estava triste. Recolheu-se cedo. Dormir. Dormir. Dormir.

Dois dias depois, finalmente ligou para o seu celular. Os toques vinham, vinham, vinham e nada. Tentou novamente: desligado. Cadê você Renato? Evandro Luís percebeu que qualquer chance de envolvimento mais íntimo estava enfim soterrada. Para sempre. Então deixou-se derramar pelo sofá, esticando-se todo lânguido, trêmulo. E mordendo os lábios de raiva, chorou, soluçava junto às almofadas, ouvindo bem alto um pouco mais de Aerosmith.



quinta-feira, fevereiro 07, 2013

O OPALÃO BRANCO

A especialidade de Sérgio Clitóris sem dúvida é o rosbife. Ele voltou-se para Catarina e disse:

- Cat, eu quero rosbife!

Catarina tirou o Opalão da garagem e os dois foram ao Fofelinos Algas, o restaurante mais grã-fino da cidade.

- Boa noite - disse o garçom.

Sérgiou encarou-o fixamente. E assinalou, apontando-lhe o dedo indicador:

- Aí garçom, sem querer ser indelicado mas...os seus dentes estão sujos. Bem sujos.

E estavam mesmo. O garçom esquecera de escovar os dentes. Maldito amendoim verde de casquinha, amendoim grudante.

- E eu quero rosbife! exigiu num alto volume o Sérgio, dando a maior pala no recinto.

Catarina interveio, tentando preservar a calma.

- Não ligue pra ele. Queremos o rodízio de carnes, o tradicio...

- O CARALHO - espancou forte a mesa o Sérgio Clitóris. - QUERO ROSBIFE NESSA PORRA!!!

Nesse momento, o violinista parou de executar seu número. Era seu tema predileto. A vice-prefeita torcia o nariz na mesa quinze, para desespero de seu assessor de imprensa. Envergonhada, Catarina vazou.  Entrou no Opalão e fugiu dali. Mas antes do poderoso motor rugir pela noite,  Bed of Roses soava ao fundo - apenas uma trilha sonora do acaso, naquele velho Opalão branco, perdido, rodando sem rumo pela cidade.

CAFÉ BILU

A manteiga começou a escorregar da torrada para o queixo de Bilu. Quando foi limpar-se, tingiu de catchup a sobrancelha.
E quem expulsou São Bernardo do Campo? Foi Juiz de Fora.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

TRÊS VITÓRIAS SEGUIDAS!


Muito ruim. O time do São Carlos é um lixo. Até uma latinha de Pepsi oferece mais risco ao adversário.

O primeiro tempo nasceu e amadureceu rubro-verde. Em uma etapa de um exército só, a machadada fatal foi o golaço de Éder Paulista, de fora da área, aos vinte e oito minutos. Velo um a zero.

E teve a jogada plástica. Mágica. Que congela a retina. O torcedor explode, os pulmões em brasa despertam: OLÉ!! Que chapéu do Éder! Um lençol que cobriu de alegria o velho Benitão. Outro destaque: Jefferson! Jogou muito, representou de verdade o manto rubro-verde!


No segundo tempo, ouço da arquibancada um garotinho velista exclamar, fanático: "joga simples"! É isso aí, ferinha. Sintetizou tudo. Fora uma ou outra prezepada do juizinho merda, o segundo tempo acabou correndo de buenas para a nação velista. O Velão não ampliou porque não quis. E assim, nesta quase fria noite de quarta-feira, as seiscentas e vinte almas presentes no Benitão mais uma vez constataram a consagração do nosso Velão. Que agora ruge na vice-liderança! Porque aqui é Velo, porra!

FELIBOSTA E O ENGLISH TEAM

E o English Team venceu. Rooney é Rooney. E o Brasil foi inferior. Parecia viver em campo sem trabalho de treinador. Adriano horrível. Arouca estúpido. Ronaldinho só sabe bater cartão na zona. Volantes sem direção. " O Oscar tá jogando?" Fred saiu no lucro. Lucas e Dante estiveram bem. E o Neymar MEDROSO. Neymar em campo foi um jogador de PAULISTÃO, mais pobre que o Seu Madruga levando o ferro de passar pra loja de penhor. É meu amigos, o patamar do futebol europeu é outro e ponto final. O English Team venceu.

SOBRE A PERMANÊNCIA DAS COISAS

Pai e filho conversam. Enquanto come pipoca, o pai pergunta:

- Qual roupa que não acaba nunca?
- Sei lá. Qual?
- Paletó e gravata.
- Porque?
- Porque é terno.

VAMO VELO!!


ACREDITE


terça-feira, fevereiro 05, 2013

Morreu o Garapêro. O último dos móecana.

JESUS VOLTA PRA CASA

A menos de um quarteirão de sua goma, Jesus notou que dois sujeitos lhe seguiam. Era pra ser apenas rápida ronda noturna numa vazia terça-feira. Jesus comprara dois cigarros soltos e agora desejava uma boa soneca, com a mente limpa. Apenas cigarros na alma e o travesseiro com o logo do Palmeiras adornando-lhe a vasta cabeleira castanha. Mas conforme caminhava, sabia que ia lutar. E Jesus era bom de briga. Tinha fé.

- Ei Jesus, você falhou conosco - o mais alto disse.
- Como?
O mais alto aumentou o tom, agressivo:
- Passa a grana seu vacilão do caralho!

Jesus respirou fundo. Virou-se, estóico.

- Amigos, eu tenho apenas dois Derbys. Façam o favor de cair fora.

O mais baixinho, de jaqueta de couro, estourou na gargalhada. Curvando-se todo para trás, parecendo não aguentar todo o peso da risada monstruosa, segurou até a urina dentro da cueca. Mas depois de recomposto disse, sério:

- Não enrola não. A grana. Agora.

Jesus sorriu. Encarando-os disse:

- Caiam fora daqui, seus cu sujo.

E Jesus disparou pra cima. E lá de cima, o anjo Gabriel aplaudiu. Vasculhou os vinis de São Pedro e colocou o primeiro do Skid Row pra rolar, num volume altíssimo. Os dois meliantes desapareceram pelo beco, talvez como inadimplentes de marca maior. Jesus seguiu seu caminho. Na cama, pitou o cigarro calmamente, e dedicou a última bituca aos pobres de coração.


sexta-feira, fevereiro 01, 2013

PULA DENISE!


Ela parecia estar pulando corda. E que calor fazia em Rivers! Trinta e nove graus e lá vai borracha queimada...

E ela lá, pulando. Pula, pula - pula, pula Denise! Assim! Que calor! "Tá insuportável" dissera, minutos antes. "Ai que abafado, terrível, nesse calor não dá". E a Denise lá, naquele pula, pula, pula, pula! Estava fazendo amor com Cássio, o mordomo. Insaciável, ela ia por cima, e então vieram os flashes. "Ihhh, sujou" o pobre Cássio pensou, com o coração disparado, a vista embaçada pra caramba. Denise arrancou a xoxota do peru do serviçal e lançou um grito que enche o quarto de sangue. Encarada por Artur com um ar inédito, sabia que nada seria como antes. Desolado, o marido traído não se movia, perplexo. E de repente aconteceu: Denise teve um estalo - ela se precipitou para a janela aberta e desapareceu do quarto, despencando do oitavo andar. Caiu em cima de uma mobilete. Caiu a poucos milímetros do Paulo Farofa, um engenheiro civil que suava muito - e agora era o suor brilhando na testa e a insistente coriza na napa, meros detalhes perfazendo aquele assustado homem nascido na velha Rivers.
A mulher do Crespo? É a Lisa.

FÔNEI



Tinha a cara frouxa e fofa, o Fônei. Andava pela Rua Quatro com a Avenida Sete, receoso. Eram oito e meia da noite, ou talvez oito e trinta e dois agora. É que verificara o horário lá no relógio da Praça da Matriz.  

Depois de dar duas voltas no quarteirão, estacou. Levou a mão até o queixo papudo, caídão. Queria entrar no Devitto, Sports Bar e Chopperia. Queria gordura também. Mas não tinha grana. Não tinha aparência. Não tinha roupas, não tinha trajes e penteado. Nem amigos. Não possuía experiência social suficiente. Não conseguia soltar algo da boca sem gaguejar. Não conseguia parar de suar na altura do umbigo. Não conseguia parar de detonar uns Rafitus depois de um big dum almoço triplo. E outra vez estava suando, quando de repente sentiu que precisava cagar. Atravessou a rua depressa. Surgiram algumas vozes, meio embaralhadas, vindas da esquina. Fônei se assustou, seu tornozelo não era de borracha e a insuportável dor tinha uma trilha sonora:


- Sai da rua seu nerd tetudo!


ROCK NA ROÇA

O que me empolga numa cidade ananias são as pessoas. A trutagem é o céu da roça, que resiste ao peso dos dias. Caminhar, caminhar n...