quarta-feira, fevereiro 20, 2013

GERNICO NA LINHA

Não confio em ninguém. Não confio em ninguém, era o Gernico quem repetia sempre essa porra de frase. Não confio em ninguém. Não confio em ninguém. Se estava brigado com a mulher, guardava a bronca sozinho, no maior silêncio da galáxia. Nada de sair soltando o verbo com os amigos. Por mais reservado e responsa que o ouvido alheio fosse, a contingência da serpente entraria em ação, igual a novela das seis. A serpente daria as caras, e o boné de crocodilo em verso e prosa traria à tona o fraco do ser humano. "Gracejos né?" "Gracejos entre colegas". E então ele puxava um punhado de catarro, puxava uma cana massa, o dono da rinite e do mau humor espontâneo em doses brutais. Era um rabugento com todos, o Gernico, era o que ele achava que deveria pensar a pobre mãe, em idade avançada e agora liquidada, com paralisia cerebral. 

Numa fuleira tarde de quarta-feira Genico está sozinho em casa. Sai do banho contrariado. É que o telefone tocou.

- Alô!

Gernico respira com força e fundão, respira bem forte.

- Com QUEM você quer falar, amigão?

Gernico muda de cor. Cores quentes surgem na fronte larga, e o telefone é segurado com ódio crescente. Sua mão aberta em ação sufocaria o pescoço da Fátima Bernardes sem pestanejar.

- Ah, vá se foder, gente boa. Escuta aqui, marmitão de encomenda: vá induzir sua mãe a dar o rabo com xampú! Numa boa. Aliás, é mais fácil eu convencer você a largar isso que você chama de ocupação do que você me vender alguma bosta. (...) Isso. Vá dar chilique lá na casa do caralho.

Gernico desliga. O telefone é batido no gancho com fúria, o telefone vai precisar duma potente sessão de Cataflan. Estamos em plena maravilhosa tarde de quarta, e a velha toalha do Santos está molhada, cobrindo Gernico da cintura pra baixo. Do outro lado da linha, sobra um rapaz fardado de imbecil. Com a pele feita de acne e repleta de espinhas, faz beicinho. Vira pra "amiga" de óculos e também fardada de imbecil, ao seu lado. Está muito bravo: "óin, que filhu da puta..."

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OUVINDO HARDCORE E LENDO ESCRITORES BRASILEIROS E DO TIO SAM

As pessoas estão sem coragem.  As pessoas brincam verbalmente nas redes sociais perpetuando o lado cômodo da vida.  Já é uma bela bos...