quarta-feira, fevereiro 20, 2013

O CHURRAS DA GALERA


O churrasco havia terminado para a maioria. Tinha sido excelente - também pudera, um churras na casa do Mestre Zanzibar já começa quente. E pela mesa comprida no quintal muitas bebidas, de cachaça sem rótulo ao run de Lex, de cerveja gringa à Galeguinho. Todos líquidos fazendo a alegria da galera. O churrasquer era o Laércio. Que distribuía carne mal-passada e bem passada, tostada rapidex na brasa ou numa levada mais arrastadona também. Quem puxava a trilha sonora era o Mestre Barquinhos. E sim, claro não podemos esquecer do vinagrete de Jennifer e os patês mágicos da lírica Caneva Silence, que pela farta mesa também reluziam, armanezados ou em potes de plástico ou em  pequenos pratinhos. 

Começara às duas da tarde, a bagaça. Agora eram oito e meia, e o Laércio já estava beldão. Acompanhando a piração do crepúsculo, Jeff Sono tinha os olhos meio místicos, cheios de sono e leseira malandra. Geralmente, nessa hora começam a rolar aquela série de trapalhadas inesquecíveis. Contudo, ali não havia um perigo eminente. Lex puxou o carro, e o resto da galera também. A jovem Marieta apenas havia torrado parcialmente as sobrancelhas ao tentar reacender o fogo na base do soprão monstro à queima roupa. "Ideia de jerico" disse Caneva Silence. Mas perfeitamente plausível, o esforço. Vocês sabem: a pessoa chega ali como quem não quer nada, examina o carvão, e coloca a fuça bem perto do fogo mandando ver no motor de arranque pulmões. 

Assim, entre punzinhos, tragadas e piadas internas maliciosas,muitos foram vazando, o que era natural, é claro e os reunidos eram apenas cinco agora: o anfitrião Zanzibar, o prestigiado bêbado Laércio, Tablitas Chips e Jeff Sono, um casal divertido e brenfado e ela, a louca, Jennifer.  A delegada que dedicara-se a beber intensamente sua Pitú. Antes que o porre chegasse, ela era outra pessoa na casa de Zanzibar: conversava atenciosamente com todos, dispensando ótimo tratamento e simpatia. Sabia ouvir, sabia falar. No entanto, alguém ali pressentira que haveria um problema com o abuso de bebida. O problema apareceria sim, no porre louco da delegada Jennifer, mas o homem que havia pressentido tudo aquilo também estava bastante alcoolizado: falo aqui do advogado Laércio.

Ao invés de sugerir cautela, o anfitrião lascou no talo o volume do rádio. Era Iron Maiden a dar com pau no esquema. "Se foda pessoal, vamos curtir". Tablitas Chips e Jeff Sono naquela altura da noite capotaram no chão mesmo, usando a caminha dos cachorros como agradável travesseiro. E o casal sonhou algo bastante lúcido, em chroma key mesmo: o casal sonhava junto. Uma hora eram egípicos apaixonados fugindo dos tiras locais, outra hora eram uma dupla do barulho arrebentando numa session afrobeat rock and roll com instrumentos vintage. E no mundo real reagia neste momente sobre eles a soneca. Para os outros três algo terrível estava prestes a acontecer. Jennifer sem querer gorfou no rosto do advogado. Mestre Zanzibar ficou preocupado. "Vou ter que limpar o chão, que merda". E o Laércio? 

Bem, quando começou a entender que seu rosto fora alvo fácil de Pitú regurgitus, uma mera face para o pouso amortecido daquele gorfo, Laércio ficou uma fera. Encarou a autora dos disparos. Ameaçou inclusive atacar a delegada à vassouradas. Nessa altura, Mestre Zanzibar já dormia também, ouvindo Infinite Dreams. Dormia de óclinhos e sorrisinho estampado, o pote colado à caixa de som, as pernas maneiras numa bermuda de pescador bem esticadas e relaxadas.  Então de súbito Laércio jogou água no rosto e aparentemente esqueceu o episódio. Procurou encarar a cena como uma provocação caliente. Jennifer pedira desculpas e praticava a tática do halls preto agora. Laércio era um rapaz de sorte e, para seu deleite, beijou a delegada na boca.  Atrás deles, alguns corações de frango sorriam, no ponto, prontinhos na grelha do rock. 

E advogado e delegada em ação. Os dois no maior bole que bole, e os outros roncando, felizes. Cada um na sua pira. Era o churras da galera. O relógio não tinha menor participação naquele rolê. No final do churrasco o relógio não fora convidado: e às dez da noite outro prolongado beijo perto da mesa comprida irrompia, ao som da donzela de ferro. O quinteto e o grupo inglês chacoalhavam pra valer naquele vivo pedaço de viva poesia na velha Rivers.

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