quinta-feira, março 21, 2013

SILÊNCIO NA RUA OITO

Pelo celular, ele conferiu o horário: quatro e pouco da manhã. Celsinho andava cabreirão. Voltava a pé pra casa, sozinho. Não havia uma viva alma na Rua Oito naquela altura do campeonato. O Celsinho, que era um cagão por natureza, olhava desconfiado para tudo que não se mexia. Qualquer indício de movimentação ou mesmo ruído imaginário já o deixava apavorado. No meio daquela paura interna, lembrou-se da música Sorrow, do Bad Religion.

"Será possível que não passa nenhum carro por aqui? Nem uma bicicleta? Nenhum nóia neste trecho - como assim?" Não era nem tanto a perspectiva de um assalto ou traumática abordagem que o congelava: era o próprio medo de sentir muito medo. Celsinho respirou muito fundo, o máximo que podia, sentiu-se nadando no riozinho de sangue do inferno, nadando embaixo do sangue, de olhos fechados, com a respiração curta. Apertou o passo. De cabeça baixa, seguia com as mãos no bolso, rangendo os dentes incessantemente. Queria chegar logo em casa, porra. Tomar um banho quente. Mas faltava muito. Teria que andar muito. E andava agora com uma leve náusea, que ganhara status de ânsia de vômito, com a garganta fechando-lhe qualquer vestígio de tranquilidade, de paz. E quando foi acertado bem na cabeça, Celsinho caiu feio no asfalto, quebrando o braço esquerdo. Ficara todo ralado na cara, de imediato, e percebeu que na verdade doía pra cacete seu corpo inteiro, e não sabia porque estava prestes a ser executado. Levou dois tiros bem na cabeça, e um furou-lhe o peito. O silêncio na Rua Oito não demoraria a retornar. Eram quatro e dezoito da manhã na velha Rivers.



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