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ASPECTOS


A editora Abril acaba de anunciar. É verdade. Demitiram o Cláuzio. Andava dando despesas demais, o funcionário.

Enquanto voltava pra casa, após o horário de expediente, pegaram-no pensando em atividades prazerosas. Diversão não combina com responsabilidade. Levou então um pito. Um pito anal. Coitado, do Cláuzio. A editora Abril deu-lhe uma linda bicuda no ass.

Agora ele trabalha no Supermercado Dia.

Não sabe mais o valor da noite, não é um trocadilho, porque ele empacota fezes, e lambe agradáveis detergentes depois do "plique", o registro do caixa.

Em seu diário emocional, ele admite a si mesmo, suando frio embaixo do nariz: o Cláuzio morre de medo de ser preso. Porque lá dentro ele vai viver outra dimensão existencial. E depois não será mais o velho Cláuzio da editora Abril, escrevendo sobre empadinhas para senhoras desocupadas na sacada do 37.

No entanto, quando o Cláuzio voltava para casa, resolveram cobrar-lhe o oxigênio.

Estava respirando de graça. Que safado. Foi preso. Revistado. E multado - porque não sorrira durante o procedimento de praxe. 

Capa da revista Veja, virou celebridade. Comemorou comendo Sequilhinhos,  em fotos especiais, por conta de seus trezentos mil novos seguidores no Twitter.

Cláuzio foto com o pessoal do PT, que espera a próxima eleição com o cu soltando faísca. Depois, pura agenda de celebridade, concedeu dois workshops e duas palestras na UNIP. Ganhou uma grana e gastou no xópin.

Enquanto voltava pra casa, após uma apresentação no Power Point sobre bodes expiatórios, pensou em alguma coisa pra comer. Que tal um rodízio de ervilhas?

Mas então o pessoal da igreja César, que o monitorava, tossiu alto . Ele percebeu. E o Cláuzio engoliu um remédio e acordou no pátio do colégio Quércia.


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