sexta-feira, junho 28, 2013

O LARÁPIO ARGENTINO


Simplona, aquela loja de R$1,99.  

Algumas modestas bexigas, saboneteiras, enfeites de natal, uma grande soma de lápis de frágil grafite, jogos como "Resta 1" (crássico!), enfim, uma loja bem humilde, localizada no bairro de Argeys.

Quatro da tarde, e o movimento é mediano. Pessoas mal-educadas entrando e saindo, enquanto a gorda do caixa está de bigode. O segurança saiu pra dar um dois, mas já volta. Os oito, nove clientes disponíveis no recinto não percebem o que acontece por baixo dos panos. É ele: Héctor. O larápio argentino.

É um homem magro, de cabelo negro liso, desgrenhado, com um palito judiado dançando entre os dentes. Héctor desfila tranquilo entre as prateleiras. Observa com cuidado um garfo de madeira.  A cabeça ele mantém baixa, discretíssima. E o seu casaco de moletom, azul e cheiroso?

Bem, o casaco de moletom possui novos amigos. Um apito de cordão logo é adicionado, seguido de uma carteira infantil.  E um carrinho plástico, vejam só, de fricção, ganha nova morada dentro da calça jeans. Mas o casaco de moletom novamente volta a ser o centro das atenções.

Porque é ele que recebe um exclusivo espremedor de laranjas.

Héctor passeia satisfeito naquele curto espaço. Ninguém percebe suas intenções. E assim, sente-se feliz quando consegue colocar dentro da cueca uma tesoura para corte de frango. Adora tungar objetos. Já que era frustrante fazê-lo apenas através do sonho, resolveu precipitar a coragem  pelo coração.

Dentro da loja, clientes formam a famosa fila indiana. Uma folha de sulfite pregada com durex na parede avisava: "Não aceitamos cartões de crédito/débito".  Uma senhora de 57 anos estende sua compra no balcão. Trata-se de uma esponja para banho. Levará pra casa também um pequeno cofre, no formato porquinho. Atrás do caixa, a atendente faz cara de bosta. Olha pra telinha do computador piscando preços, está infeliz. É gorducha e enfia o dedo no nariz. Que nojo. Seu bigode é repudiado por 103% dos clientes. Parece que tudo que acontece em sua vida é desinteressante, uma bela porcaria sem fim. E então o troco aparece e a cliente não se despede.

No maior espírito de mamãe-condescendência, a loja de R$1,99 assiste Héctor abandoná-la. Respirando a plenos pulmões, o andar resoluto, o sorriso crescente, Héctor sabe que o jogo pega varetas com estojo plástico agora é todo seu.

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