terça-feira, julho 30, 2013

O RETORNO


O regresso. Após alguns dias em Minas Gerais, ele estava de volta. Ajudei-o a abrir a casa. Então veio ao me encontro. Dei-lhe um beijo no rosto. Ele estava feliz. Eu também. Simpático, atrás do rosto uma onda jovial pulsava-lhe o bom ânimo. Alegre, agora ansiava em arrumar as coisas - enfim, estava ele pronto, de volta ao conforto do lar. Meu velho pai.

sexta-feira, julho 26, 2013

A FESTA DA AMIZADE, EPISÓDIO DE HOJE

Quando eu era pequeno, tomei nota de sua existência. Tratava-se do Mini Shopping de Rivers. O "Shopping Cisa". Ali, na Rua 2. 


Troquei umas fitas de Atari, na época.

Dizem que o Tim Maia ali esteve, certa vez. Quando cresci vi que não era shopping de verdade. Aquilo era outro negócio, por lá morava um bazar. E do lado, existiu um edifício arrojado, cuja cobertura abrigava uma escultura em L, abstrata, pura lantejoula verde. 

E numa noite fria, no décimo andar, Tim Maia discutiu com Pedro Dolphin a influência de Marvin Gaye em suas veias. Ninguém gravou a conversa.

Mas existem algumas lembranças encharcadas de uísque paraguaio.

É claro: o Tim estava nessa. Derrubava o álcool sem parar pelo sangue.  Para elevar a natural embriaguez de seus curtos dias, a embriaguez que como Cola Tenaz o apadrinhava. 

O caminho da criatividade não passa pela autodestruição do sujeito, isso é bullshit, disse o Pedro Dolphin. O velho Tim não respondeu. Tragou o careta, entediado.



Com esforço, o Pedro Dolphin recorda: "o Tim Maia andou circulando também pela Avenida 29, e o fez dentro duma Brazoca calibrada de boa vontade. A Brazoca fazia cócegas através dos rios, dos bravos rios de violento colesterol do Tim.Sua perna não formigava. Sua perna era gorda na batata. E macia."


















Ouço barulho de panela inox na pia da cozinha. A alma de Violeta bebe vinho, seu rosto é vermelho e o frio está dispensado agora. O frio certifica-se que em sua carteira de trabalho foi dado baixa, e sai fora. Saiu fora e entrou na coberta de lã do Zacarias. 

Outro copo, Violeta. Violeta viveu os 80. Anos de Tim Maia chafurdando na buzanfa. Anos de zica para os pais da mulher. Anos de rebeldia da Violeta. Mas não era inconformismo ideológico petista. Enfim, não posso julgar. É fácil julgar por julgar porque você não leva tijolada. Mas que faltou uma reflexão mais apurada ao invés do jogo sujo em alguns momentos, ah, isso faltou de sobra. Como falta decência à esse comando do São Paulo. O São Paulo está na merda e alguns jornalistas corinthianos se identificam. Dome seu orgulho, amigo. Bufando fortemente antes de apagar, será que Tim Maia expirou realmente feliz nas últimas quatro horas? Não sei se o espírito caído do Renato Aragão incumbiu-se de algumas palavras estilo Dorflex aos parentes mais chegados. Na melhor das hipóteses, é melhor você aumentar o som novamente, e assistir outro simpático episódio do Chaves.



quarta-feira, julho 24, 2013

MAÇAROCA NO BAILEY'S


Você entra no Soulseek.

Resolve vasculhar as salas.

Numa delas, circulam piadas sobre negros, brasileiros, gays, travestis. E mais: pessoas com aids, pessoas que moram na Rocinha.

Tudo muito engraçadão, não é mesmo?

E no outro canal da existência, o que está passando?

O papa como ídolo, em visita íntima ao Brasil. Na tela bonita da tevê, a juventude exibe seu rebolado pelas ruas do país, devidamente fantasiada de fé five minutes.

Bacana.

Enfie a cabeça na privada, feche os olhos e apodreça com merda subindo-lhe pelo nariz - talvez um dia pensara nisto o Túlio.

Que Túlio, Túlio Maravilha?


Não-não. O Túlio Caçola. Ele mesmo. O próprio. Vendedor de cuecas para banho. Você conhece a exclusiva linha do Túlio cuecas? Não? Vai ver é porque todo o projeto mora na cabeça do Túlio, ainda. Pois o Túlio se divide em megalomania e contínuas desrealizações.

Dia desses o Túlio encarou o pai, já era noite. O pai gordo estava  espaçoso na sala, pai gordo que assistia na tevê um filme americano dos anos oitenta, onde a turma era jovem e se divertia um bocado, disputando altas rixas no boliche do Bailey's. 

No meio de uma cena quente, o Túlio entra no raio de visão do coroa. De pé, encara o pai. Descansando na poltrona amarela, totalmente ajustado, o pai estava feliz. E a poltrona é reclinável, o pai é gordo à beça e tem pressão alta.

- Sai da frente Túlio, você não é transparente.

O Túlio não ouve. O Túlio olha para o pai, e o vê assim:


Túlio abandona a sala. Busca refúgio, busca a rota do banheiro. A mão suada. A mão suada na maçaneta, no entanto, indica: está ocupado. Túlio está desesperado, elétrico como xixi prestes a nascer, mas o banheiro logo é liberado. É um banheiro minúsculo, embora gentil nas ondas da hospitalidade. Só que neste momento tudo é mórbido, o ar é cinza e surrupiado de Cubatão. 

Então Túlio olha-se no espelho. MEDO. Ele não é capaz. Não reconhece sua figura. Se acha estranho, escroto. Mexe e remexe, o espelho é algo novo. Túlio tem o fluxo de raciocínio avulso, agora. Não configura nada. Não sabe o que é pele, estrutura óssea, corpo. Sua mente é similar àquela embalagem descartável de batatas do Mc Donalds, vazia. 

- ôôôôôôÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ!!!

- Cala a boca, seu retardado - grita o pai, entornando  o restinho de Caracu na garrafinha.

Vamos tentar abrir a porta, Túlio? Mas peraí: chave, corpo, dedos, movimentos, rosto, alma? Linguagem? Maçaneta, ele nem olha pra ela! Meu Deus, quero morrer, porra, socorro, socorro, eu vou

Strike.

PELAS RUAS DE BIRDLAND

Hebert Nascimento caminha lentamente pelas ruas de Birdland.

Enquanto isso, cento e vinte almas dividem este mesmo espaço e toda sua extensão. 

Como é o caso do Seu Primoco. Seu Primoco está na horizontal agora. É homem que ronca horrores, despachado no colchão, com a gelatinosa barriga peluda apontada para o teto, aos sessenta e quatro anos. 

A pobre mulher, Isilda, de mesma idade, coitada, apelara meses antes para quilos de algodão nos ouvidos, relaxantes musculares, soníferos, e litros de vodka. Em vão. Nada pode calar aquele ronco, inundando-lhe todo seu cérebro em esguichos de neurose compulsiva. É. O ronco existe. 

E era um ronco vomitado, muitas vezes. Que também provocava-lhe convulsões em forma de sombra - apodrecendo-lhe o teto da alma, porque são meses e meses de profundas olheiras.

Noite anônima e súbito a Isilda estaca, de pé na cama, descalça, cadavérica - ao lado do ronco Isilda estaca, e com joanete.

Seu Primoco continua na horizontal. Seu Primoco está babando, roncando, a boca bem aberta, solando horrores. Ele não toma nota de que meu bom amigo Hebert Nascimento caminha pelas ruas de Birdland, caminha o leitor de Céline, caminha o instintivo boxeador da natural sinceridade perante a curta trajetória da vida, pelas ruas de Birdland caminha o meu bom amigo.

sexta-feira, julho 19, 2013

Comendo uma pêra. Curtindo a própria satisfação. A pêra é comestível e a mordida proporcionada traz a metafísica do agradável na pele. Regiões inteiras do sossego em alta. 

E minha cachorrinha, a Isabel, é uma fox paulistinha. Agora ela descansa, ao meu lado. Meio dia e quinze. Grande Isabelzinha, parceira.

Eu preciso desbravar o centro de Rivers. Por lá não tem pera pêrambulando na calçada. Existem pessoas. Algumas sérias, outras nem tanto. Tá todo mundo vivendo. Alguns trabalham como barbeiros. Outros perfuram úlceras e registram a caveira em cachaça pura.

Logo vai anoitecer. E não estaremos no mês de janeiro. Pela cidade em trapos, em algum canto daquele bairro pobre e sofredor, Eurico pegará uma tesoura bem pontuda, na cozinha. Com ela, pretende desfigurar o pescoço da vítima. Mata a mulher pelas costas, mata os dois filhos dormentes. E depois se mata também, estrangulado em dívidas, suor no sangue atropelando a testa congelada.

quarta-feira, julho 17, 2013

"RODRIGUINHO MOSTRA A CARA"

Guiado exclusivamente pelos sentidos, o jovem Rodriguinho cagou na calça, num misto de documentário e reality show.

terça-feira, julho 16, 2013

quarta-feira, julho 10, 2013

VOCÊ CONHECE?

Conhece a irmã da Ana Raio? É a Kika Raio.

A VELHA RIVERS

Você abre a gaveta e, ao invés de encontrar velhos pares de meias, topa logo é com besouros, todos mortos. Ao sair de casa, você tropeça. Olha pra trás, mas não existe obstáculo. Tropeçou sozinho, o céu é vermelho, como o sangue que jorra do alto da sua cabeça, você não sabe se está inconsciente, volta a abrir a gaveta, escolhe a primeira meia, o par está trocado, você busca uma caminhada revigorante pelo Campo de Aviação, o céu é azul, Rivers, sol radiante, irrompe a manhã de quarta-feira.

sábado, julho 06, 2013

MATRONA AVANÇA

Uma briga estava prestes a explodir! Suzete lançou mão do rolo de macarrão e plá – Euclides caiu tonto, a cabeça marretando o pequeno criado-mudo.

POBRE SERAFIM

O Serafim andava numa maré de azar terrível.

Primeiro perdera o carro numa enchente. Depois, o pé: uma torção poderosa e acabou perdendo a entrevista de emprego. Aquela era uma excelente oportunidade de mudar de vida, e ele era o candidato mais cotado. Paciência.

O Serafim resolveu então descontar na manguaça toda sua frustração.

Noite de sábado, ele está em casa. Sem nada pra fazer. Afoga-se na Jurubeba. Liga a televisão. Há um jogão em andamento: Portuguesa e Cruzeiro, ao vivo, no Canindé. Com direito aos sempre precisos comentários do “craque Muller”. Para rebater a fome nascente, o Serafim sapeca um amendoim goela abaixo.


Seu pé ainda dói. Dói muito. Que raiva, Serafim. Haja Jurubeba. O jogo é chato, e o amendoim não está legal. E ainda por cima, quando já alcança o finzinho do pacote, Serafim morde o japonês com tanta fúria, com tanta FORÇA, que de repente ele escuta um "CLÉQUI". Calma, Serafim. É apenas um dente da frente que desabou em cima do sofá.

Vocalista da Banda Calypson, Joelma, Perde Dente da Frente em Jantar

sexta-feira, julho 05, 2013

SIMPLESMENTE MARILENE

Marilene anda nervosa.

De tanta tensão acumulada, ontem tirou o maior bifão da Lúcia. A Lúcia chiou, disse que a amiga nunca fora assim, tão desastrada e cruel. Manicure também fica de chico, manicure também faz merda, a Marilene se esquiva, de modo grosseiro. Mas a Lúcia se despediu aflita, com uma das mãos latejando bastante. 

Depois que o Gérson rompeu com a Marilene, seus dias sofreram uma mutação: tornaram-se uma bosta. Ela mal consegue rangar. Não consegue dizer que a vida é vida. Não atende ligações.  Talvez por isso, quando multada por parar sua motinho em  local inadequado, desferiu um tapa na face de Éder, o policial.

E O FUMACÊ NA FIORINO

E o fumacê na Fiorino, quatro colegas tabelando em riso farto, chapados.

Fazia frio, portanto os vidros tinham de estar totalmente fechados. Aquele era o quarto béqui na roda, na sauna, e através da prosa viam-se metáforas gelatinosas acerca do passado, sobre aquela trip retardada, aquela trip palosa no pet shop da Duda – entre papagaios soltos e araras irritadas, os quatros racharam o bico na cara dos atendendes – e no entanto uma crescente dificuldade na articulação da fala aos poucos pausou aquele psicodélico retrato.


No "banco de trás", as gaguejadas apenas valsavam, como garoa fina num céu manso. Enquanto isso, Maria Augusta transportava sossegadamente o grupo na Fiorino. Que gostoso. Súbito, um animal desconhecido cruzou-lhes o caminho. Que afobação! O controle da direção foi para o espaço, o béqui fez-se um meteoro queimando o banco do passageiro, e os gritos marofados foram distribuídos ribanceira abaixo. A queda foi de aproximadamente trinta metros.

quinta-feira, julho 04, 2013

RENATO PÁTRIA

Disse uma vez Voltaire que o ouvido era o caminho do coração. Pois o inverso se dava com aquele policial: aquele homem era incapaz de ouvir a própria ventosidade anal.

Ao voltar para o seu quarto solitário numa noite de merda, Renato Pátria ouviu a mesma barulheira de sempre. A gritaria da molecada na rua. "Não tem pais, esses filhos da puta, gritando meia noite na minha janela?" Aquilo geralmente incitava-o a bradar uma série de resmungos, que geravam uma sinfonia de risos zombeteiros por parte dos pirralhos. Mas naquela noite Renato Pátria estava com um problemão. Sim. Além da recém adquirida disfunção erétil por excesso de fermento para os músculos, tivera a habilitação suspensa. Não poderia dirigir automóveis dentro dos limites da lei. Parecia pouco, mas ele estava possesso. Junte isso ao desprezo da secretária Danieli perante seus prodigiosos cortejos. Junte isso ao incessante ruído da molecada chutando o lixo no portão servindo de gol, justamente o lixo não recolhido pelos seus velhos amigos, os "garis maconheiros". Os chutes iam fundo na bolota do Renato Pátria. 

Pois então Renato estufou o peito. Saiu para fora de casa, obstinado. Desafiou os garotos. Ganhou o que com isso? Uma cusparada. Uma crosta de ranho tapando-lhe uma das vistas. Abria o olho e ganhava catarro, um obstáculo,   aquele catarro consistente, bastante esverdeado, grudado em seu olho esquerdo. As gargalhadas ao seu redor fabricavam agora uma falsa labirintite. E então Renato Pátria, nublado, humilhado, não teve escolha: mirou o berro no peito do menino de 12 anos. 

O barulho de tiro afundou a rua e sufocou um rascunho de palavrão dentro da noite.

quarta-feira, julho 03, 2013

UM BOM MOTORISTA

Alaor era um motorista e tanto.

Rei da experiência, especialmente no trato do busão. 

Havia décadas que comandava as linhas dos bairros de Londislou, Sucesso Perfeito, Mãe Jonas e Bom Apelo. Dominava todos trechos. Dosava nas curvas, era amigo do câmbio. E era carinhoso com o asfalto. Tratava-o com simpatia: até o envelhecimento das valetas ele acompanhava, meros detalhes do desgaste natural das ruas mereciam sua atenção, o que certamente era 100% desprezado por todos os passageiros. Além disso, Alaor conhecia a manha dos sinais de trânsito. E também das lombadas. 

Quanto aos aspectos negativos da malha asfáltica, como os ocasionais buracos, por exemplo, Alaor os tolerava. Aquele homem não era um santo, mas possuía um generoso tanque de paciência para suportar o peso dos dias com alguma dignidade, muito longe de ser uma mulherzinha. 

E o mais importante: além de um piloto extraordinário, era um bom camarada. Era querido pelos trabalhadores. As moças viam ali um conselheiro. Os rapazes sempre trocavam apostas de resultados das pelejas mais aguardadas, arriscavam umas broncas sobre o panorama político do país. Ali ele lidava no fino trato com todos, da desquitada ao pesado usuário de tóxicos, da criança supertranquila berrando as tripas ao fanático religioso carente de uma boa ducha.

A linha 2570 era querida por todos moradores. A familiaridade que emanava o estimado Alaor, seus apelidos carinhosos mas não invasivos, sua boa disposição em suportar as mazelas de uma vida fodida e desgraçada o tornavam alguém especial, detentor da essência do próprio carisma. A linha 2570 era dele, era ele.

Aproximava-se o final do expediente. Seu Alaor está desligando o veículo. Súbito, dois sujeitos entram no ônibus. Anunciam para o motorista e o cobrador que vão colocar fogo no veículo. O cobrador foge num estalo, como uma barata escafedendo diante de um velho sapato 44. Abandone o ônibus antes que seja tarde, por favor. A angústia é um corpo incendiado no banco da frente. Seu Alaor quer viver, quer dar linha logo, quer zarpar. Mas é queimado pelas chamas.


terça-feira, julho 02, 2013

O FUNILEIRO BETÃO

Betão, funileiro de responsa.

Mais de vinte e cinco anos de estrada. Três filhos no currículo. E um netinho.

Dois maços de cigarro fumados ao dia. E ao final do turno, meia dúzia de Brahmas em cima da mesa, devidamente enxugadas.

Betão é firmeza. Sai com a Iraci. Na condição de viúvo, tenta esquecer a Marta, morta por complicações renais.

Ele e a Iraci dão certo juntinhos. Pegam um cineminha vez ou outra. Comédia romântica sem sal ou filme de ação, tudo dublado, com baldes de pipoca. Iraci trabalha no mercado. Não é raro vê-la dando o ar da graça na funilaria, levando aquela maça geladinha pro seu velho bofe.


Betão acorda bem cedo. Umas cinco da matina e já está pegando o caminho da padoca, pra levar um tiro pelas costas e morrer sem cigarro.

DIGRESSÕES

O motorista havia parado para um dar um cagão.

Sim, aquele homem cinquentão, zumbi, precisava fazer cocô dentro do posto de gasolina.

Enquanto isso, dez caras foram saquear o caminhão. Havia muitas caixas de cerveja na jogada. A festa começara. Agilizo e silêncio eram os ingredientes. Mas um dos rapazes estava perdido em digressões.

Huguinho até que conseguiu pegar duas caixas e jogá-las na caminhonete. Por dentro, ele estava radiante, o ímpeto sonhador relanceava os olhos para além do posto, além das garrafas. Lembrava-se do vídeo de "Summer of 69" ao vivo, do cantor Bryan Adams. Gostava muito daquele vídeo, especialmente da interação entre a música e os fãs. O cantor puxava os acordes logo no ínicio, solitário, e podia-se ouvir o eco de suas palhetadas para baixo. E assim, milhares de pessoas abririam os pulmões, como se beatíficas uivassem pelo estádio cada aroma daquela letra, daquela canção. Várias câmeras trabalhavam, vários closes eram captados. Semblantes, tão anônimos, levantavam oculta esperança. Trabalhadores braçais, pessoas comuns, professores de inglês,proletários unidos pela melodia, pelo canto, na multidão aglomerada trocavam figurinhas - simples experiências eram recordadas com carinho entre verso e refrão, inconscientemente ou não. Então Huguinho estacou. Podia alcançar o rosto de cada uma daquelas pessoas, guardava detalhes preciosos daquelas figuras vivas naquela belíssima filmagem, Huguinho era aquela alegria, o milagre da música, a resistência, a alma dos dias. 

E enquanto aguardava no 6ºDP, a ressaca da coca provocou-lhe mais um dispensável ataque de náusea por todo seu universo. O vômito, geladinho, viria na sequência, como um suco Ades de baunilha a bailar pelo chão da delegacia.

ROMÁRIO E BEBETO

Vadeco e Peninha, os dois na função.

O destino? O busão. Não do lado de dentro. Do lado de fora: Vadeco e Peninha escolheram o ponto de Vila Ricarda.

Quase vinte e oito pessoas aguardavam a condução. Estudantes, aposentados, duas senhorinhas com dificuldade motora, algumas crianças, um ex-jogador do Guarani, funcionários kafkanianos - todos esperavam baqueados o bumba, bufando naquele climão pós expediente, até os rapazes mostrarem serviço.

Assalto anunciado num português camoniano, e todo mundo se borrou de medo. Quem estava de fone de ouvido na orelha fez questão de arrancar na hora. Jaqueline, uma gorda como o próprio nome indica, soltou um gás. Ao seu lado, um rapaz de boné da Nicoboco, na cor preta, sentiu o cheirão de repolho. Mas não pode reagir. Os caras ameaçavam, era hora do rapa.

Peninha recolhia os pertences. Vadeco empunhava o cano. Era um homem decidido. Havia roubado duas Hilux. Era capaz de matar. Peninha então o obedecia, distribuindo tapas e socos. A tática era eficaz e logo alianças, bolsas, carteiras e celulares mudariam de endereço. 

As pessoas que esperavam o ônibus estavam amontoadas, com o intestino ruim.

Com medo de que a viatura chegasse logo, Vadeco também resolveu agir. Puxou com força a sandália da doméstica Valdete. Em seguida, desferiu-lhe uma cotovelada na altura das mamas. Peninha cuspiu em seus pés descalços, na sequência. E ainda teve tempo de xingá-la com saliva no cantinho da boca, por duas vezes.

segunda-feira, julho 01, 2013

ATENTADO AO PUDOR NA PRAÇA JOSÉ GLOVER

Assanhados, eles engatavam o maior rala e rola na praça.


A bolinação era extrema. Deitados, proporcionavam uma improvisada pornografia na pracinha José Glover. 

Pelados na lua cheia, dois corpos suados se agasalhavam, num geme-geme pra lá de espalhafatoso. Um se virando com o outro, perto de papéis de bala Chita e duas latinhas de Bavária. Uma meteção do cacete, como diria o general Cardoso. 



E quando o rapaz estava perto do gozo,  uma saúva invadiu-lhe o ânus.

PISCUÍ NO COMANDO


Piscuí abordou o casal. 

Ela devia ter uns 18, ele uns 18 também. Passa logo a gaita, que o Piscuí quer dinamite no cachimbo. Abordagem meio apalermada, no meio de avenida movimentada. Piscuí de pistola na mão encara o casal. A dupla está encolhida, mais assustada que a defesa da Portuguesa.

Mas Piscuí peca pelo excesso de confiança. Logo um giroflex, uma imensa luz vermelha risca o céu, risca a área visual do malandro. E agora? Sujou. Neste exato instante, é o Piscuí que parece assustadão. Ele vai dar fuga, pular o muro, vai no pinote monstro. 


E ao esconder a arma dentro da calça, Piscuí disparou e acertou o saco. 

JOCA EMPINOU A MOTOCA


Joca empinou a motoca. 

E seguiu adiante. Era pura pose, acelerando a bichinha, empinada. E ia descamisado, pagando de gatinho, como se o pessoal do bairro fizesse questão em fotografar aquela cena radical. 

O domingão ensolarado na roça abençoava algumas famílias unidas, que aproveitavam a fortuna da ocasião pra dar aquela pratada em conjunto, acionando e intercambiando ideias, afetos, velhas memórias, cenas bacanas do passado. 

No caso do Joca, era a rebeldia quem providenciava o cardápio. Almoço em família era coisa de trouxa. A motoca empinada é mais negócio. Empinar motoca era o seu vício. Inconsequente,  armava a pose, Joca empinou a motoca sorrindo de óculos escuros - com armação branca. Ele era habilidoso, e a motoca ganhou ainda mais velocidade, até bater de frente com um Escort XR3. 

O motorista do veículo foi arremessado contra o pára-brisa, quase saiu pelo teto, e rachou o crânio no poste. Morreu na hora e o Joca também.

RODOVIA FINKEY


Rodovia Finkey. A ambulância voa, desesperada. No volante, está Washington, um senhorzinho razoável.  Tem as mãos firmes para trocar as marchas, mãos de um homem de 52 anos. 

E o comando dos pedais? Bem, Washington tem o pé de chumbo, bruto, violento. Sem crise, acelera nervoso - ele pisa muito forte, pela noite. 

A ambulância está voando, literalmente. A ambulância rasga a Rodovia Finkey. A ambulância treme toda, podemos sentir suas portas padecendo em calafrios, inclusive. Mas a ambulância voa, ela dispara. A ambulância vai a milhão, com seu velocímetro perto dum enfarte fulminante.

E em seu leito, ela leva Taiane. Taiane é uma dançarina de axé. Ela está com problemas. Precisa de cuidados médicos, urgente. Pela louca madrugada, a ambulância voa, enlouquecida. E sem querer derruba Taiane, que morre atropelada na pista.

pode apostar, Lindomar

confuso, vagabundo, folgado. louco por futebol e rock and roll, aquele flamejante, conhece? incendiário, de libertação. louco por liter...