quarta-feira, julho 24, 2013

PELAS RUAS DE BIRDLAND

Hebert Nascimento caminha lentamente pelas ruas de Birdland.

Enquanto isso, cento e vinte almas dividem este mesmo espaço e toda sua extensão. 

Como é o caso do Seu Primoco. Seu Primoco está na horizontal agora. É homem que ronca horrores, despachado no colchão, com a gelatinosa barriga peluda apontada para o teto, aos sessenta e quatro anos. 

A pobre mulher, Isilda, de mesma idade, coitada, apelara meses antes para quilos de algodão nos ouvidos, relaxantes musculares, soníferos, e litros de vodka. Em vão. Nada pode calar aquele ronco, inundando-lhe todo seu cérebro em esguichos de neurose compulsiva. É. O ronco existe. 

E era um ronco vomitado, muitas vezes. Que também provocava-lhe convulsões em forma de sombra - apodrecendo-lhe o teto da alma, porque são meses e meses de profundas olheiras.

Noite anônima e súbito a Isilda estaca, de pé na cama, descalça, cadavérica - ao lado do ronco Isilda estaca, e com joanete.

Seu Primoco continua na horizontal. Seu Primoco está babando, roncando, a boca bem aberta, solando horrores. Ele não toma nota de que meu bom amigo Hebert Nascimento caminha pelas ruas de Birdland, caminha o leitor de Céline, caminha o instintivo boxeador da natural sinceridade perante a curta trajetória da vida, pelas ruas de Birdland caminha o meu bom amigo.

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