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RENATO PÁTRIA

Disse uma vez Voltaire que o ouvido era o caminho do coração. Pois o inverso se dava com aquele policial: aquele homem era incapaz de ouvir a própria ventosidade anal.

Ao voltar para o seu quarto solitário numa noite de merda, Renato Pátria ouviu a mesma barulheira de sempre. A gritaria da molecada na rua. "Não tem pais, esses filhos da puta, gritando meia noite na minha janela?" Aquilo geralmente incitava-o a bradar uma série de resmungos, que geravam uma sinfonia de risos zombeteiros por parte dos pirralhos. Mas naquela noite Renato Pátria estava com um problemão. Sim. Além da recém adquirida disfunção erétil por excesso de fermento para os músculos, tivera a habilitação suspensa. Não poderia dirigir automóveis dentro dos limites da lei. Parecia pouco, mas ele estava possesso. Junte isso ao desprezo da secretária Danieli perante seus prodigiosos cortejos. Junte isso ao incessante ruído da molecada chutando o lixo no portão servindo de gol, justamente o lixo não recolhido pelos seus velhos amigos, os "garis maconheiros". Os chutes iam fundo na bolota do Renato Pátria. 

Pois então Renato estufou o peito. Saiu para fora de casa, obstinado. Desafiou os garotos. Ganhou o que com isso? Uma cusparada. Uma crosta de ranho tapando-lhe uma das vistas. Abria o olho e ganhava catarro, um obstáculo,   aquele catarro consistente, bastante esverdeado, grudado em seu olho esquerdo. As gargalhadas ao seu redor fabricavam agora uma falsa labirintite. E então Renato Pátria, nublado, humilhado, não teve escolha: mirou o berro no peito do menino de 12 anos. 

O barulho de tiro afundou a rua e sufocou um rascunho de palavrão dentro da noite.

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