quarta-feira, julho 03, 2013

UM BOM MOTORISTA

Alaor era um motorista e tanto.

Rei da experiência, especialmente no trato do busão. 

Havia décadas que comandava as linhas dos bairros de Londislou, Sucesso Perfeito, Mãe Jonas e Bom Apelo. Dominava todos trechos. Dosava nas curvas, era amigo do câmbio. E era carinhoso com o asfalto. Tratava-o com simpatia: até o envelhecimento das valetas ele acompanhava, meros detalhes do desgaste natural das ruas mereciam sua atenção, o que certamente era 100% desprezado por todos os passageiros. Além disso, Alaor conhecia a manha dos sinais de trânsito. E também das lombadas. 

Quanto aos aspectos negativos da malha asfáltica, como os ocasionais buracos, por exemplo, Alaor os tolerava. Aquele homem não era um santo, mas possuía um generoso tanque de paciência para suportar o peso dos dias com alguma dignidade, muito longe de ser uma mulherzinha. 

E o mais importante: além de um piloto extraordinário, era um bom camarada. Era querido pelos trabalhadores. As moças viam ali um conselheiro. Os rapazes sempre trocavam apostas de resultados das pelejas mais aguardadas, arriscavam umas broncas sobre o panorama político do país. Ali ele lidava no fino trato com todos, da desquitada ao pesado usuário de tóxicos, da criança supertranquila berrando as tripas ao fanático religioso carente de uma boa ducha.

A linha 2570 era querida por todos moradores. A familiaridade que emanava o estimado Alaor, seus apelidos carinhosos mas não invasivos, sua boa disposição em suportar as mazelas de uma vida fodida e desgraçada o tornavam alguém especial, detentor da essência do próprio carisma. A linha 2570 era dele, era ele.

Aproximava-se o final do expediente. Seu Alaor está desligando o veículo. Súbito, dois sujeitos entram no ônibus. Anunciam para o motorista e o cobrador que vão colocar fogo no veículo. O cobrador foge num estalo, como uma barata escafedendo diante de um velho sapato 44. Abandone o ônibus antes que seja tarde, por favor. A angústia é um corpo incendiado no banco da frente. Seu Alaor quer viver, quer dar linha logo, quer zarpar. Mas é queimado pelas chamas.


Um comentário:

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