quinta-feira, agosto 15, 2013

MÚSICA?

Não, você não ouve música. Ela sequer lhe foi apresentada. Você está interessado em ser um otário. Que apenas respira, rasteja através da moda. Esbelto e de orelhas sábias, escolhe o que já escolheram por você. "Vip". "Pop".Você é um perdedor credenciado.

sexta-feira, agosto 09, 2013

SEXTA RIVERS

Fim de tarde. Rivers. Sexta-feira e a rápida pausa dos ônibus suburbanos, recolhendo almas em trânsito. 


Na Rua 5, o colégio estadual Marcelo Schimidt está de portões abertos, uma voz microfonada de mulher celebra a rua, mas o tom é o que não consigo alcançar, visto que a neurose de poucos carros engarrafados corta o barato do bom senso.




quinta-feira, agosto 08, 2013

QUINTA-FEIRA

Quase três da tarde. Rivers. Na encruzilhada da Rua 4 com a Avenida 3, agitação humana. É a corrida desenfreada para os bancos, para o comércio, para o suicídio da diversão.

Vejo um ex-gótico de regata laranja e óculos escuros, andando de chinelo, perto da loja onde vende suco. Vejo senhorzinhos de bengala, heróicos, cheios de vida, grisalhos e batalhadores. Uma senhora de idade avançada veste blusa preta, sentado em um simples banco do Jardim Público. É hora do descanso: à sua frente o carrinho de sorvete boceja. Na banca ao lado despencam os gols da miséria, marketing decadente, e mais ao alto o semáforo trabalha sem graça: estamos na Rua 3. 


Na fila do banco Santander reclamações de um eletricista rancoroso, histórias de boné pra trás "ele tumultou o plantão, contou uma piada nada a vê, do boi verde...", mas há espaço para iluminações, fora do banco, entre cochichos das calçadas, reluzentes, Rivers pressente.
As estrelas de Rio Claro caçoam dos escravos do tempo. Na Banca do Anésio uma formiga de bandana vermelha procura uma esgotada edição da Rock Brigade. A próxima paisagem é um simples colchão voador, balança a loucura de um homem comum.

INTENSIFICAÇÃO


Quem poderá acordar e sair voando pela janela do quarto? Uma alma vagante, um fugitivo? A manhã responde clara, límpida. Céu cristalino, nuvens macias, móvel travesseiro de terra branca, sob o olhar estilingado do sol ameno, tão brando e puro que reverte a sutileza em força. Buscando outras fronteiras, o homem que deixou a janela da razão voa pelas ruas de Rivers.

E todos na Rua 3 apontarão - "olha!" e vão deixar o homem voando. Voa alto, derramando suor nos transeuntes. Voa aspira brisa, pretende, consegue. Porque pela Rua 4 o homem voa, perpassa a Sociedade Italiana, brota-lhe a paz no ambiente macio que é cada extremo cotovelo.

A Loja Acesso vende mouses.E o homem inconsequência. Voa em linha reta em linha louca, sinuosa, rasante entre prédios cheios de predicados. Os curiosos correm juntinho, pesados em inveja, e o homem voa perdido, sereno, sentimento da manhã descende pelos pés suspensos, unhas felizes voando sem chagas, desprovido de intermediários o homem apenas sacudiu uma insistente remela pra dizer que acordou, e saiu voando pela janela,  como se abraçasse silencioso o riso o coração da Rua 5, no centro da cidade, pelo céu azul da velha Rivers, intensificado.


terça-feira, agosto 06, 2013

duas gavetas

Duas gavetas à minha direita: a gaveta da especulação e a gaveta do diálogo.

Não consigo pensar com clareza. Mas sei que a gaveta da especulação é bem contraditória. Ela gosta de ir pescar aos domingos, levando no bagageiro a paranoia. Mas antes de partir, não dispensa uma pequena pausa: encherá os pneus no Auto Posto Incoerência. 

Você vai lá pescar. Ajeite o manancial de idéias fixas.  Na corrente de cada movimento do braço, a cada gesto calculado, a paranóia toma-lhe um pouco da vida, deixando a morte aguçada. Que bom. E no final o parafuso diz que a morte sairá vitoriosa, esse é o peido que o rio da miséria intui na sua canela arrepiada, o pum cresce e o aroma da paranóia rebola em sua face.  Então você diz que isso não passa de mera especulação. Pausa a pesca, esquece o peixe, afia a discórdia, diz que paranóia e trevas são uma dupla sertaneja que não alcançou o sucesso de Tadeu e Todinho, que as duas não passam de naturais figurantes de quinta categoria, buscando  uma rápida aparição neste curto espetáculo que é a vida.

De toda feita, você encerra a pescaria. O tédio desceu, e a nuvem mijou em sua cabeça. Chuva pra desmanchar-lhe o topete. E na gaveta, trêmula a frase, você consegue ler: meu amigo, você nunca gostou de pescar, porque vai pescar agora, justo em 1987? A chuva molha sua boca com gosto de feijão gelado, pastoso. É hora de guardar os apetrechos. Depressa. É hora de montar no carango e vazar. Isso: primeira marcha, depois a segunda – e a paranóia no banco traseiro, olhe pelo retrovisor: ela está sorrindo com uma bigurrilha sujando-lhe os dentes da frente. Ok. Vamos ligar o rádio? Hmmm. Fluminense e Vasco? Não, não vale a pena. Isso. Deixa aí. Tá rolando Tears for Fears. Quando é assim, você nem precisa tomar banho ao chegar em casa. Impressionante. Sujeira e limpeza, par ou ímpar, peças de cena, figurantes naturais neste curto espetáculo ao molho caos. Pronto. Cheguei em casa. Baliza de campeão me faz aumentar a confiança.

Será que você é capaz de lembrar daquele momento? Quando anotou seu histórico primeiro gol, e seus colegas de equipe caindo do pára-quedas sob o céu do delírio, como se explodissem em cores quentes na extinta TV Manchete.

Pegue a chave. Abra a porta. Pronto: nós caminhamos ao longo de uma onda escura. Quem é coxinha pisa nas bordas recheadas. Bordas do provolone perdido, do fígado rasgado, a dor é certa...  


A outra gaveta é a do diálogo. Diálogo: o segredo é nele conter o puro néctar da simplicidade. Atingir as regiões feéricas da vida. As pausas sagradas saber respirar em silêncio colaborativo.

pode apostar, Lindomar

confuso, vagabundo, folgado. louco por futebol e rock and roll, aquele flamejante, conhece? incendiário, de libertação. louco por liter...