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duas gavetas

Duas gavetas à minha direita: a gaveta da especulação e a gaveta do diálogo.

Não consigo pensar com clareza. Mas sei que a gaveta da especulação é bem contraditória. Ela gosta de ir pescar aos domingos, levando no bagageiro a paranoia. Mas antes de partir, não dispensa uma pequena pausa: encherá os pneus no Auto Posto Incoerência. 

Você vai lá pescar. Ajeite o manancial de idéias fixas.  Na corrente de cada movimento do braço, a cada gesto calculado, a paranóia toma-lhe um pouco da vida, deixando a morte aguçada. Que bom. E no final o parafuso diz que a morte sairá vitoriosa, esse é o peido que o rio da miséria intui na sua canela arrepiada, o pum cresce e o aroma da paranóia rebola em sua face.  Então você diz que isso não passa de mera especulação. Pausa a pesca, esquece o peixe, afia a discórdia, diz que paranóia e trevas são uma dupla sertaneja que não alcançou o sucesso de Tadeu e Todinho, que as duas não passam de naturais figurantes de quinta categoria, buscando  uma rápida aparição neste curto espetáculo que é a vida.

De toda feita, você encerra a pescaria. O tédio desceu, e a nuvem mijou em sua cabeça. Chuva pra desmanchar-lhe o topete. E na gaveta, trêmula a frase, você consegue ler: meu amigo, você nunca gostou de pescar, porque vai pescar agora, justo em 1987? A chuva molha sua boca com gosto de feijão gelado, pastoso. É hora de guardar os apetrechos. Depressa. É hora de montar no carango e vazar. Isso: primeira marcha, depois a segunda – e a paranóia no banco traseiro, olhe pelo retrovisor: ela está sorrindo com uma bigurrilha sujando-lhe os dentes da frente. Ok. Vamos ligar o rádio? Hmmm. Fluminense e Vasco? Não, não vale a pena. Isso. Deixa aí. Tá rolando Tears for Fears. Quando é assim, você nem precisa tomar banho ao chegar em casa. Impressionante. Sujeira e limpeza, par ou ímpar, peças de cena, figurantes naturais neste curto espetáculo ao molho caos. Pronto. Cheguei em casa. Baliza de campeão me faz aumentar a confiança.

Será que você é capaz de lembrar daquele momento? Quando anotou seu histórico primeiro gol, e seus colegas de equipe caindo do pára-quedas sob o céu do delírio, como se explodissem em cores quentes na extinta TV Manchete.

Pegue a chave. Abra a porta. Pronto: nós caminhamos ao longo de uma onda escura. Quem é coxinha pisa nas bordas recheadas. Bordas do provolone perdido, do fígado rasgado, a dor é certa...  


A outra gaveta é a do diálogo. Diálogo: o segredo é nele conter o puro néctar da simplicidade. Atingir as regiões feéricas da vida. As pausas sagradas saber respirar em silêncio colaborativo.

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