quinta-feira, outubro 24, 2013

Antoine Roquentin, o pequeno-burguês:

"Interroga-me com os olhos: aprovo, abaixando a cabeça, mas sinto que está um pouco decepcionado, que desejaria mais entusiasmo. Que posso fazer? É culpa minha se em tudo o que ele diz reconheço incidentalmente citações, ideias alheias? Se vejo reaparecerem, enquanto fala, todos os humanistas que conheci? E conheci tantos! O humanista radical é particularmente amigo dos funcionários. O humanista dito "de esquerda" tem como principal preocupação conservar os valores humanos; não adere a nenhum partido, pois não quer trair o humano, mas suas simpatias se voltam para os humildes; é aos humildes que dedica sua maravilhosa cultura clássica. Geralmente é um viúvo de belos olhos sempre úmidos de lágrimas; chora nos aniversários. Gosta também dos gatos, dos cachorros, de todos os mamíferos superiores. O escritor comunista gosta dos homens, desde o segundo plano quinquenal: castiga porque ama. Pudico, como todos fortes, sabe ocultar seus sentimentos, mas sabe também, através de um olhar, de uma inflexão de voz, fazer pressentir, por trás das palavras rudes de justiceiro, sua paixão agridoce por seus irmãos. O humanista católico, o retardatário, o benjamim, fala dos homens com ar  embevecido. Que belo conto de fadas, diz ele, é a mais humilde das vidas, como a de um estivador londrino ou a de uma operária que pesponta botas! Escolheu o humanismo dos anjos; escreve, para edificação dos anjos, longos romances tristes e belos, que frequentemente recebem o prêmio Fémina.

Esses são os grandes papéis principais. Mas há outros, enorme quantidade de outros: o filósofo humanista que vela por seus irmãos como um irmão mais velho e que tem o senso de suas responsabilidades; o humanista que ama os homens tais como são; o que os ama tais como deveriam ser; o que quer salvá-los com sua concordância e o que os salvará, quer queiram quer não, o que deseja criar novos mitos e o que se satisfaz com os antigos; o que ama no homem sua morte; o que ama no homem sua vida; o humanista alegre, que tem sempre uma coisa engraçada para dizer, o humanista sombrio que encontramos sobretudo nos velórios. Todos eles se odeiam entre si: como indivíduos naturalmente - não como homens" 

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