quinta-feira, novembro 07, 2013

45.

No baú guardarei Ramones, Social Distortion. 

No baú deixarei uns refrões do Muzzarelas, no baú eu sei - pão com mortadela tubaína e Joe Strummer - ouvirei a eterna voz do punk rocker Voltaire - no baú nós velaremos pela contundência porrada de Sartre, pelo romantismo decaído de Fante, no velho baú.

Numa tarde cinza, cheia de pequenos frios e abraços, eis a cena perfeita: minha amada, nós dois, a gente, e o baú guardará aquelas cicatrizes dos personagens impossíveis de tão devastadores - das almas dostoievskianas - Cinema Paradiso no coração.

No baú nós ouviremos Bon Scott gritar feito um beberrão alucinado de calça mijada e surrada, suando goró num pub sujo e quase vazio, com aplausos sinceros naquela luminosidade baixa, o pub é o baú, encardido e amaldiçoado nas esquinas de Gogol, mas ainda estamos ouvindo AC/DC - nos gorfos trêbados bonfirescos ele mermu ressurgirá - com alguns bourbons a mais, é claro, atravessando todas as esferas da cuca às 03:15 da matina, porque Johnny Thunders fará a guitarra vomitar discórdia em double stops ultrapassando a sacanagem, enquanto GG Allin peida na cara da mainstremice e o Agente Cooper faz aquele jóia pra geral, que está numa pracinha podre perdendo a linha, MC5, a geral na gentileza dum churrascão sem fim, rindo demais, rindo até as tripas fí, rindo e rindo e rindo, todo mundo rindo junto, rindo muito, rindo - e antes de dormir o baú resgata aquelas imortais  palavras - as palavras do chefe Cruz e Sousa ressoarão sagradas, como o velho Muddy Waters chapado de Kerouac.

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