Pular para o conteúdo principal

45.

No baú guardarei Ramones, Social Distortion. 

No baú deixarei uns refrões do Muzzarelas, no baú eu sei - pão com mortadela tubaína e Joe Strummer - ouvirei a eterna voz do punk rocker Voltaire - no baú nós velaremos pela contundência porrada de Sartre, pelo romantismo decaído de Fante, no velho baú.

Numa tarde cinza, cheia de pequenos frios e abraços, eis a cena perfeita: minha amada, nós dois, a gente, e o baú guardará aquelas cicatrizes dos personagens impossíveis de tão devastadores - das almas dostoievskianas - Cinema Paradiso no coração.

No baú nós ouviremos Bon Scott gritar feito um beberrão alucinado de calça mijada e surrada, suando goró num pub sujo e quase vazio, com aplausos sinceros naquela luminosidade baixa, o pub é o baú, encardido e amaldiçoado nas esquinas de Gogol, mas ainda estamos ouvindo AC/DC - nos gorfos trêbados bonfirescos ele mermu ressurgirá - com alguns bourbons a mais, é claro, atravessando todas as esferas da cuca às 03:15 da matina, porque Johnny Thunders fará a guitarra vomitar discórdia em double stops ultrapassando a sacanagem, enquanto GG Allin peida na cara da mainstremice e o Agente Cooper faz aquele jóia pra geral, que está numa pracinha podre perdendo a linha, MC5, a geral na gentileza dum churrascão sem fim, rindo demais, rindo até as tripas fí, rindo e rindo e rindo, todo mundo rindo junto, rindo muito, rindo - e antes de dormir o baú resgata aquelas imortais  palavras - as palavras do chefe Cruz e Sousa ressoarão sagradas, como o velho Muddy Waters chapado de Kerouac.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CONVERSANDO COM LÚCIFER

Só ontem fiquei sabendo da tragédia. A alma grandalhona de Barra-Forte voltava da academia Apolo e BLUM! conheceu a fúria do Passat 87 cinza, cinza como a indiferença dos deuses. Igor Bilu tinha todo o rosto ralado, eram as barbas de sangue e asfalto vencendo sua estupenda força. Estava derrotado. O autor do atropelamento aproximou-se, pálido: - Amigo...quer ajuda? Desculpe, te levo no hospital...Não tive culpa, você que não viu o pare. Curiosos se amontoavam pela esquina da avenida 29 com a rua 4. Luciano do Valle disse-me ter visto o zumzumzum, ambulância, helicópteros, curiosos amontoados pela esquina. No entanto, nem sequer reduziu a marcha da S-10, seguiu para o Bar da Montanha, em Limeira. Desaprovo isso, Luciano. Na hora que precisastes do pobre lutador para montar a série de televisão na Gazeta, a já extinta "Combates Seminais", encheu-o de elogios, incentivos, mimos confessos, potes de creatina. Cretino (não tive como conter essa, leitor). Igor Bilu nem deve ter compl…
E eu perguntei pro Casão:
- Mas você tá a velocidade do raciocínio tá igual a do Peter Tosh pra fazer taboada?

voadores

Por favor, gentileza: mais uma dose dessa languidez. Mais uma dose lânguida e precisa, em camadas de vento tão leves, breves. Esparramado aqui dentro da mente, esparramado e mais uma dose dessa languidez que vizinha da volúpia ataca, passado presente futuro, céu vermelho, céu de sangue, mas não há resquícios de salvação, redenção e essa sintaxe toda.
Os lânguidos estão trêmulos, uma coisa inútil, tão verdadeira e dilacerada. Crescem, tomando entre as esquinas dos esquecidos seus porres melancólicos. Então, o quarto escuro, o corpo deitado.  A mente exige o holofote em off,  o botão mute, mas não haveria porra nenhuma.  Como cegos e inconsequentes gestos malcriados, languidez e perturbação começaram a disputar o bingo da desgraça, instantes desnecessários erguiam-se trágicos. Pensar era difícil.  Dentro de alguma cozinha alguém provocaria uma desastrosa cena de ovo e pele queimada na altura da barriga, mas o fogão é apenas alguém que vai ficar parado quando você morrer.  Estouros entre …