Pular para o conteúdo principal

RESENHA: ABUSIVE !

Era algo impossível aquilo.

Aquele homem estava  febril, mas era uma FEBRE de uns 60º, um negócio muito sério.

A praça, a cidade pirou forte.

Mas ele não dava indícios que iria empacotar. Mantinha-se firme, de pé, ainda que com uma olhar muito louco, morto-bêbado capega mas voraz, expressão latente de quem adotou Marte como lar há decadas. 

Sete pessoas o cercaram ao ar livre, na praça.  Eram sete curiosos pescoços mas na real não paravam de chegar pessoas.

O homem estava calado, mas seu fébrão atingiria países de humanos, países de loucos corações cheios de cólera.

O homem tinha os olhos vermelhos de sangue, pupilas vermelhas, aquele quadro era composto por um esculpido semblante do horror, a boca dura, pegando fogo.

Na praça, aquela febre humana então apenas pronunciou -  a língua lem brasa, as mãos trêmulas: ouçam este cd, agora!

E o pessoal, que também ficara FEBRIL pediu ao chefinho ali do carrinho de cachorro quente: "com licença, será que o senhor pode   reproduzir o cd aqui, no seu sistema de som?"

E entre batatas palhas e salsichas delirantes, o senhorzinho de roupa branca assentiu com a cabeça.


PLAY!  A banda? ABUSIVE, lá de Bastos, cravada em São Paulo.

Agora era compreensível.

O carrinho explodiu na hora!



Abusive: power violence em ebulição corrosiva ou pedras de calçada grind chovendo em curto circuito, noise-balanço do inferno, dança macabra das caveiras noise.

Trilha autorizada dos despachos regurgitados em segundos intensos de náusea compulsiva pelo ar– para alguns, são segundos ultrarápidos, para outros segundos trágicos – de uma tragédia vingadora, a começar pelo seu cenário ensurdecedor, vive a cena: a bateria esmigalha o conformismo-padrão da arte mela cueca, a guitarra tem a voz do além, em frases relâmpago punch ódio nóia de um cadaverismo ultrarápidão, o som é esmagador!

O homem agora tem a temperatura de 102º grauzinhos, outras setes pessoas começam a enxergar uma praça banhada em sangue, estão dançando e se mutilando espiritualmente, libertando-se do óbvio – para além da rotina, dos padrões de convívio, o som do ABUSIVE escancarou em seus rápidos segundos 10 granadas que mudaram para sempre a praça, as pessoas, aquele homem que agora engoliu e mastigou os próprios olhos, babando sangue e reverberando fúria em passos lentos, em contraponto ao disco, tocado mais uma vez, mais duas vezes, três vezes, ABUSIVE é a nova refeição do senhorzinho que abandonou a profissão para ir à Bastos bater cabeça, pogar e chutar em euforia o restante de seus dias no reino invisível do caos.






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CONVERSANDO COM LÚCIFER

Só ontem fiquei sabendo da tragédia. A alma grandalhona de Barra-Forte voltava da academia Apolo e BLUM! conheceu a fúria do Passat 87 cinza, cinza como a indiferença dos deuses. Igor Bilu tinha todo o rosto ralado, eram as barbas de sangue e asfalto vencendo sua estupenda força. Estava derrotado. O autor do atropelamento aproximou-se, pálido: - Amigo...quer ajuda? Desculpe, te levo no hospital...Não tive culpa, você que não viu o pare. Curiosos se amontoavam pela esquina da avenida 29 com a rua 4. Luciano do Valle disse-me ter visto o zumzumzum, ambulância, helicópteros, curiosos amontoados pela esquina. No entanto, nem sequer reduziu a marcha da S-10, seguiu para o Bar da Montanha, em Limeira. Desaprovo isso, Luciano. Na hora que precisastes do pobre lutador para montar a série de televisão na Gazeta, a já extinta "Combates Seminais", encheu-o de elogios, incentivos, mimos confessos, potes de creatina. Cretino (não tive como conter essa, leitor). Igor Bilu nem deve ter compl…
E eu perguntei pro Casão:
- Mas você tá a velocidade do raciocínio tá igual a do Peter Tosh pra fazer taboada?

voadores

Por favor, gentileza: mais uma dose dessa languidez. Mais uma dose lânguida e precisa, em camadas de vento tão leves, breves. Esparramado aqui dentro da mente, esparramado e mais uma dose dessa languidez que vizinha da volúpia ataca, passado presente futuro, céu vermelho, céu de sangue, mas não há resquícios de salvação, redenção e essa sintaxe toda.
Os lânguidos estão trêmulos, uma coisa inútil, tão verdadeira e dilacerada. Crescem, tomando entre as esquinas dos esquecidos seus porres melancólicos. Então, o quarto escuro, o corpo deitado.  A mente exige o holofote em off,  o botão mute, mas não haveria porra nenhuma.  Como cegos e inconsequentes gestos malcriados, languidez e perturbação começaram a disputar o bingo da desgraça, instantes desnecessários erguiam-se trágicos. Pensar era difícil.  Dentro de alguma cozinha alguém provocaria uma desastrosa cena de ovo e pele queimada na altura da barriga, mas o fogão é apenas alguém que vai ficar parado quando você morrer.  Estouros entre …