terça-feira, janeiro 06, 2015

VALOROSO VÍTOR

Ao invés de 24 horas, 77 horas.

O dia ficou maiorzão. 

As horas bordejam bem mais devagar.

Não me venha perguntar sobre o funcionamento real disso. A lógica, os fatos, vão todos se foder.

Exemplo: no mundo dos idiotas, se agora são três da manhã e você tem que acordar cedo - na verdade estar de olhos abertos daqui poucos minutos - bom, então aí você está, você está hospedado em apuros.

Provavelmente o Vítor ficará zangado contigo.

Ou o Vítor vai formar um bico na frente do pecê ou vai lançar aquele olhar de intensa reprovação, bufando.

E você, ora, você é o protagonista. Responsável.

Cadê a palavra?

Não importa. Atraso é atraso. Cadê a pontualidade?

Pouca importância tem se você sonhou acordado que o mundo é legal demais e esqueceu que o verbo dormir apenas delimita regras no mundo dos normais. 

Não importa se você devorou linhas esculpidas no século XIX sem pressa, invadindo a madrugada, cheio de companheiras consoantes no seu quarto amarelo de luz.

Não. O Vítor vai franzir a testa. Vão voar pequenos tufos de cabelo em sua mesa, também decepcionada. Calvo e cansado, ele vai achar que você é um bosta.

- Pago esse filha da puta pra ele nunca chegar no horário...

Pronto: o dia começou pra você. Remelas são repelidas com o dedo indicador. Você procura café, cadê? É, parece que o Vítor bebeu tudo.

Uma vez puxada a cadeira e olha lá, você se acomodou no escritório. Será que vai chover? O clima tá uma merda. Esqueci o desodorante, droga. E tudo pausado no recinto. Ruído zero, só o superior contrariado. Desprovido de coragem, está ensaiando caras feias, patético percurso do desgosto, ginástica facial do mundo adulto. O silêncio do poder aguça uma possível telepatia que ameaça os ultrasensíveis, porque um chefe mudo é um mudo muito perigoso.

E aí, o que você faz?

Coloca o pau pra fora e mija na cabeça do Vítor.



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