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NOITE BÊBADA DE SÁBADO



Rio Claro, noite bêbada de sábado.



Postes quase sem luz. Cenário propício. E ele puxou o canhão ali mesmo, e a velhinha quase caiu dura. Coitada. Pálida, perecia com o batimento cardíaco muito mórbido, a alma cabelos cútis congelada. Aquela fria arma apontada pertinho da praça, a missa mal havia acabado, e ela de boca aberta, lembrou do derrame da Elvira. Pediu calma a si mesma: ela parou lembrou que entre grampos e um lencinho de papel seminovo restara-lhe apenas uma cédula de cem reais na bolsa. No entanto, o revólver estava com pressa. Aquele revólver avançando bem perto do nariz - o tiro seria no meio da napa ou trucidando a têmpora?

Quando ela pensou que ia se cagar, eu cheguei e explodi a cabeça do assaltante: pláu. Não era um pé de cabra, era apenas uma centelha de ódio, afinal não existe moral, tampouco bandido ou herói, a cidade é assim bêbada de sábado, e a velhinha começou a chorar, e foi aqui que eu sumi, como que por milagre, desapareci. Por coincidência, o assaltante vazou também, se escafedeu.

A vizinhança chegou, varandas e vozes do buxixo com mais luz que os postes, evidente. Calçando sandálias, uma bondosa gorducha apresentou um copo levando água com açúcar. A senhorinha chorava na calçada. Lembrava ainda do derrame fatal que zerou a pobre Elvira, eu vou morrer sem a novena, e ela voltou a si, estava em Rio Claro, paralisada, ela tremia muito, ela sabia que o coração não era corajoso de montão, mas acreditava que estava salva até a próxima missa, ao menos. 

Então um policial chegou fumando um béqui. 

Chegou e apagou o banza no mocó, dispensou e disfarçou o cheiro com um desodorante gringo. A vizinhança foi logo com aquele discurso fascista "pega ele doutor", "ele estava numa bicicleta amarela", "mata ele doutor", "favelado". É mais fácil pensar assim né? Nem é. Mas o policial achou que era o Cobra e continuou no exercício de sua função, demonstrando certa superioridade, apesar do baixo ordenado. Em passos calculados foi se aproximando da suposta vítima. 

- Calma, minha senhora.

- ...

O policial procurou valorizar os ombros. O polical esforçou-se para dar completa vazão ao seu clássico peitinho de pombo, um homem durão. E respirando ainda meio reggae, perguntou com voz de tira velhaco:

- A senhora notou se ele tinha algum dente na boca?

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