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AQUELA VELHA ESQUINA

É.

É.

É uma vida só, Soares.

Alguém ligou a porra da ampulheta no meio do mergulho.

Uma vida só. E você brinca. Você brinca com o tempo, se quiser.

A discussão vai girar em torno de Rio Claro.

Nesse momento Muddy Waters está dormindo.

E a Avenida Sete e Rua 8 estão conversando.

Tome essas linhas. 

Imagine dois amigos, amigos de anos e bons momentos de diversão e terna camaradagem, chapas trocando uma ideia bacana no degrau de uma loja que fechara às seis da tarde. 

Agora a rua é calma, a rua abre um relógio que aponta sete e meia, sete e meia.

A esquina conseguiu buscar vida e vagarosamente trouxe bastante.


Aquela velha esquina noturna, muitas vezes silenciosa e taciturna, sabe?


Aquela velha esquina, onde apressados carros abrigam motoristas que estacionam mal pra caralho e saem bufando "estou acima do peso",  onde gírias mulecotes larápias e lisas deslizam como "e aí cachorrão - eu já fui preso quatro vezes esse ano", onde madames ou múmias que não conhecem garis pelo nome passam com medo do convívio mínimo, casais pouco se lixando com o mínimo humanismo de merda, apressados com seus pobres cachorrinhos de pelúcia, aquela velha esquina onde conversamos sobre Dead Kennedys, aquela velha esquina, a boa e velha esquina.

Aquela esquina do fortuito, onde você cumprimentou velhos camaradas de diferentes gerações, revisitou velhas chapações em piadas-lembrança, aquela velha esquina onde pobres farrapos quase imploram por moedas e saíram em sorrisos de orelha a orelha, dançando com moedas siricotico nas imundas palmas das guerreiras mãos - sonhos de Corote - aquela velha esquina onde instalaram um piano maionese executando uma triste peça minimalista, aquela esquina onde bitucas serão esquinas do abandono, aquela esquina onde pobres adolescentes de chinelo vão morrer dali pouco anos, aquela esquina cheirando hamburguer e bacon pronta entrega, esquemão quentinho pro vovô Tirso, aquela velha esquina que em 1957 pariu um dos mais sagrados bares dessa cidade chamada Rio Claro.

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